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Como o Peru aprendeu a viver sem acreditar na política – 06/06/2026 – Sylvia Colombo

Oito policiais em uniforme preto formam linha em frente a um prédio de pedra com janelas ornamentadas. Sete seguram escudos transparentes com a palavra

Toda vez que o Peru troca de presidente, escolhe um desconhecido azarão ou deposita sua fé em figuras autoritárias que acabam se transformando em algozes da oposição, analistas e meios de comunicação repetem a mesma explicação: o país vive uma crise política permanente da qual parece impossível sair.

Quase como se fosse uma maldição. Mas não é.

A atual instabilidade é resultado de processos históricos muito mais longos, ligados à desigualdade, à perda de poder econômico e à dificuldade de construir instituições legítimas e duradouras. Os sinais da crise são conhecidos: fragmentação institucional, corrupção, presidentes que perdem apoio rapidamente e um Congresso formado por partidos frágeis ou efêmeros.

O mais intrigante, porém, não é que os governantes durem pouco. É que o país continue funcionando. Ao longo das últimas décadas, o Peru derrubou presidentes, dissolveu consensos políticos e viu partidos históricos desaparecerem. Ainda assim, exporta, cresce, atrai investimentos e produz riqueza.

Talvez a pergunta correta não seja por que o Peru vive em crise. Talvez seja por que aprendeu a viver sem acreditar na política. Para entender essa excepcionalidade é preciso voltar muito antes de Dina Boluarte ou Alberto Fujimori. Muito antes, até mesmo, da República.

O país foi duas vezes o centro de um mundo. Primeiro, o que conhecemos como o Peru era uma das principais sedes sede do Império Inca, o maior sistema político da América do Sul pré-colombiana. Depois, como coração do Vice-Reino do Peru, o mais rico e poderoso domínio espanhol no continente.

Lima não era apenas uma capital regional. Era o centro político e econômico da América espanhola ao sul do Caribe. Dali partiam decisões que afetavam territórios que hoje correspondem ao Equador, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Chile, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Poucos países latino-americanos experimentaram uma perda tão profunda de centralidade histórica. A conquista destruiu um império. A independência desmontou outro. Para a maioria dos países da região, a independência representa um mito fundador. Para o Peru, ela também significou a perda de uma posição privilegiada que havia ocupado durante quase três séculos.

Mais recentemente, veio uma terceira ruptura. O Peru sobreviveu à ditadura de Alberto Fujimori, mas talvez ainda não tenha se recuperado politicamente dela. Ao fechar o Congresso em 1992 e reorganizar o sistema político em torno de sua própria figura, Fujimori não destruiu apenas adversários. Enfraqueceu os partidos que davam estrutura à vida pública peruana.

Entre eles estavam o APRA, fundado por Víctor Raúl Haya de la Torre, um dos mais importantes pensadores políticos da América Latina, e o Ação Popular, de Fernando Belaúnde Terry. Eram organizações com militância, identidade ideológica e vínculos duradouros com a sociedade.

O que surgiu em seu lugar foram siglas sem raízes profundas, frequentemente construídas em torno de lideranças regionais, interesses locais ou projetos pessoais. O resultado é um sistema em que quase ninguém consegue reivindicar legitimidade duradoura.

Em outras partes da América Latina, a crise costuma vir depois da posse. No Peru, ela frequentemente começa antes mesmo da eleição.

Talvez por isso os peruanos raramente depositem grandes esperanças em seus governantes. E talvez por isso eles também sobrevivam tão bem às suas quedas.



Fonte ==> Folha SP

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