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A carne é mais recalcitrante que o silício – 01/02/2025 – Reinaldo José Lopes

A carne é mais recalcitrante que o silício - 01/02/2025 - Reinaldo José Lopes

Perspectiva histórica é algo que a gente pode adquirir de várias maneiras, mais ou menos dolorosas, mas envelhecer ainda é um dos métodos de eficácia mais comprovada. Por exemplo: faz um quarto de século que comecei a acompanhar publicações científicas sobre clonagem e outras formas radicais de manipulação reprodutiva para esta Folha. E o que mais me chama a atenção é o avanço de centímetros –para não dizer milímetros– de lá para cá.

O leitor mais atento talvez diga que o meu passado recentíssimo, por si só, já me desmente. Afinal, foi nesta semana que abordei um estudo dos pesquisadores chineses responsáveis por produzir os primeiros camundongos “filhos de dois pais”. Os animais são resultado da junção do material genético de dois machos. Fêmeas da espécie só participaram do processo por meio da doação de óvulos enucleados (ou seja, dos quais foram extirpados os núcleos celulares, que contêm o DNA).

É lógico que se trata de um feito e tanto. Na natureza, enquanto existirem mamíferos, parece seguro afirmar que jamais algo parecido há de acontecer. Mas não é essa a questão.

Lendo os detalhes do processo, é impressionante como foi preciso uma quantidade quase obscena de força bruta laboratorial, uma sequência perdulária de tentativas e erros, para que alguns míseros camundongos sobrevivessem mais do que algumas horas depois do nascimento. Tem gente que usaria o adjetivo “medieval” para descrever os procedimentos (coisa que não faço porque é incorreto estereotipar a Idade Média como a era da ignorância, mas essa é outra história).

Ocorre, por exemplo, que usar DNA oriundo exclusivamente de machos faz com que os roedores se desenvolvam com órgãos supercrescidos. Isso faz sentido se considerarmos que, do ponto de vista da evolução do desenvolvimento, existe um antagonismo entre o material genético de origem materna e o de origem paterna.

Enquanto faz sentido para a mãe preservar seu organismo e seu potencial reprodutivo para a geração de outros filhotes no futuro, interessa ao pai extrair da fêmea grávida a maior quantidade possível de recursos para os bebês que ele gerou —afinal, sabe-se lá se a próxima ninhada será gerada por ele.

Em mamíferos gerados de maneira normal, o cabo de guerra entre genes de origem paterna e materna costuma chegar a um meio-termo aceitável. Nos ratinhos de que falamos, porém, a bagunça do organismo é tamanha que até a língua dos bichos é desproporcional, o que os impede de mamar. E, mesmo quando eram alimentados diretamente pelos pesquisadores, a desproporção dos órgãos internos era tamanha que eles engoliam mais ar do que leite e acabavam morrendo.

Problemas desse tipo aparecem recorrentemente desde os anos 1990. Técnicas descritas na nova pesquisa os contornam, mas nunca eliminando de todo as estranhezas e os riscos.

A verdade é que o desenvolvimento tecnológico pela via computacional nos fez esperar aumentos ilimitados de eficiência em todas as áreas com o passar do tempo.

Mas a carne (as entidades biológicas) é bem menos submissa que o silício. O desenvolvimento de organismos tão complexos como os de camundongos e pessoas depende de interações entre genes e ambiente que talvez sejam incontroláveis por definição. No fim das contas, pode ser que isso não seja tão ruim quanto parece.



Fonte ==> Folha SP

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