Todas as semanas, com uma regularidade quase burocrática, surge mais um escritor, cantor ou artista judeu devidamente “cancelado” pelas patrulhas “antissionistas”. A última da lista foi Ariana Harwicz, uma excelente escritora argentina, enxotada de um festival qualquer organizado em Granada, na Espanha. Qual foi o crime de Harwicz?
Curiosamente, ter se oposto ao cancelamento de escritores, cantores e artistas israelenses, sustentando a extravagante ideia de que os indivíduos não são culpados pelos atos de seus governos. Coerente com isso, a autora já tinha defendido a mesma posição quando começaram os boicotes a escritores, cantores e artistas russos depois da invasão da Ucrânia por Putin.
O caso é instrutivo. Primeiro, boicotam artistas israelenses por causa do governo de Binyamin Netanyahu. Depois, excluem uma escritora judia argentina por se opor a essa lógica de culpa coletiva. A certa altura, torna-se difícil continuar fingindo que não estamos falando da velha besta antissemita. Uma tragédia para os judeus do Ocidente?
Sem dúvida. Mas uma tragédia também para o próprio Ocidente, que já deveria ter aprendido esta lição dolorosa: o antissemitismo não destrói apenas o judeu; destrói também a sociedade por onde esse veneno se espalha. Destrói riqueza, conhecimento, tolerância. E futuro.
Portugal sabe disso: a expulsão, a conversão forçada e a posterior perseguição dos judeus portugueses, a partir do fim do século 15, foram uma das grandes catástrofes da história econômica e cultural do país.
Em compensação, foram uma excelente notícia para os povos que os receberam. Sempre que estou em Amsterdã, leio com uma mistura de alegria e tristeza os “Mendes”, os “Lopes”, os “Pintos”, os “Nunes” e, obviamente, os “Coutinhos” que por lá ficaram, nas lápides do cemitério de Ouderkerk, como se fossem um inventário de tudo aquilo que Portugal perdeu.
Sem falar em Espinosa, evidentemente, um nome que, sozinho, vale mais do que toda a filosofia portuguesa junta.
Na Alemanha do século 20, a mesma lição. O expurgo das universidades e a fuga de cientistas judeus durante o nazismo impediram que a Alemanha, depois da hecatombe, voltasse ao mundo dos vivos como potência científica de primeira linha.
Que Granada prolongue essa vetusta tradição é de uma ironia cósmica: foi lá que, em 1492, os reis católicos assinaram o édito de expulsão dos judeus. Há festivais que levam muito a sério a preservação do patrimônio local.
Fonte ==> Folha SP