Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Brasilidade é apelo forte à nação – 07/06/2025 – Muniz Sodré

Um homem está sentado em uma cadeira de madeira com um design de palhinha. Ele usa uma camisa laranja e um boné claro. O homem tem uma barba e está sorrindo, com uma perna cruzada sobre a outra. O fundo da imagem é escuro, destacando a figura do homem e a cadeira.

Em meio à impressão desoladora de que o país possa estar perdendo o trem da história por decomposição de um Estado cansado, carente de profunda transformação subjetiva e objetiva, a dinâmica nacional revela-se animadora. São fatos de superestrutura, despercebidos nas análises de macroestrutura, eventualmente corretas, mas alheias à rica totalidade do ser social, que inclui criatividade de formas de vida e de formatividade estética.

Pelo menos é o que acorre à mente depois de assistir ao espetáculo extraordinário de João Bosco e seu quarteto, em que se reaviva o sentimento de brasilidade, invocado por Machado de Assis no século 19. Nada do nacionalismo fechado das autocracias, mas comunhão afetiva com o território. Antes, as performances de Chico, Gil, Caetano e Betânia nos palcos já pareciam ultrapassar a categoria show de entretenimento para se configurarem como convocações à partilha da alegria coletiva que ajuda a definir brasilidade. Ao mesmo tempo, filmes como “Ainda Estou Aqui“, “O Agente Secreto” e “Malês” renovam a projeção do cinema nacional.

Há quem considere superficiais abordagens desse tipo, confrontadas com crise política, penúria econômica e corrosão social por criminalidade avassaladora. Mas existe também a falência das palavras e, logo, do pensamento. O conceito de formatividade (Luigi Pareyson, “Problemas da Estética”), que dilui o rigor da diferença arte/não-arte e aproxima vida cotidiana de atividade simbólica, sugere que o acontecimento criativo possa ser uma fresta no enquadramento com que se pensa o status-quo. Às elites cevadas no usufruto patrimonialista do Estado não importa o que mudou em termos de classes e de história. Cada vez mais ricas, hoje cúmplices de religiosos fake nutridos por corrupção e lavagem, aquecem-se com brasas do pior passado.

Mas o território sempre resistiu ao Estado pela “verdade” representativa com matriz no sentimento de nação, politicamente indeterminado, embora estável em termos históricos, culturais e psicológicos. Uma estabilidade próxima da identidade humana, ou seja, do complexo vinculativo que situa o indivíduo na intersecção de sua história individual com a do grupo. No século 19, o influente intelectual francês Ernest Renan definiu nação como “princípio espiritual”.

Entre nós, acontecimentos reais na dinâmica nacional apontam para brasilidade, a celebração da diversidade, como modo subjetivo de ação. Ainda sem alcance eleitoral, mas com perspectiva diferente do uso genocida que o capitalismo atual faz da degradação do Estado: show de horrores dos Poderes, com o Legislativo na vanguarda da corrupção fisiológica. Nada disso dissolve a brasilidade, o “saber manejar sonhos e catalisar energia” (Marina Silva).

A formatividade ascendente (música, audiovisual, jogos cênicos, periferias criativas, literatura, intelectualidades afros e indígenas), e não patriotismo bélico, implica sinergia do espírito do tempo com o princípio espiritual aberto à compreensão, bloqueada por conceitos anacrônicos, dos acontecimentos proativos. Esses que são guiados por ideias com lugar próprio. O Estado brasileiro formou-se sem nação, mas nela vige hoje o que no povo é de fato potente.



Fonte ==> Folha SP

Relacionados

Principais notícias

Jornalista denuncia perseguição e diz viver escalada de pressão após críticas ao poder público em Barcarena
Os 50 jornalistas mais influentes do Brasil em 2026, divididos por região
Os 10 maiores aplicativos de mobilidade urbana do Brasil em 2026

Leia mais

Dois anos depois, Corinthians e São Paulo decidem Brasileiro Feminino
Dois anos depois, Corinthians e São Paulo decidem Brasileiro Feminino
Nos EUA, Lula volta a chamar Trump de imperador e critica ataques à soberania
Nos EUA, Lula volta a chamar Trump de imperador e critica ataques à soberania
Não deixam qualquer pessoa entrar na sua vida! Os 3 signos mais seletivos
Não deixam qualquer pessoa entrar na sua vida! Os 3 signos mais seletivos
5 alimentos que nunca deve guardar na porta da geladeira
5 alimentos que nunca deve guardar na porta da geladeira
Naná e Victória caem, mas Luisa Stefani vai às semifinais do SP Open
Naná e Victória caem, mas Luisa Stefani vai às semifinais do SP Open
Ex-Palmeiras, Allan estreia com gol e assistência em goleada do City
Ex-Palmeiras, Allan estreia com gol e assistência em goleada do City