Quantos homens você conhece ou de quantos homens ouviu falar que foram assassinados pelas companheiras? Arrastados de carro, queimados, esfaqueados, baleados? Pois é. Em compensação, me vem à cabeça pelo menos meia dúzia de mulheres mortas exatamente assim nos últimos meses e nem é preciso pensar muito. Isso tem uma explicação que está nos números que são públicos e oficiais.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, dos homens vítimas de morte violenta intencional no Brasil, apenas 4,4% foram mortos por mulheres —e aqui entra qualquer mulher: a desconhecida que cometeu latrocínio, numa briga de rua, numa discussão com a vizinha. Não só a companheira. Já entre as mulheres vítimas de feminicídio, 97,3% morreram pelas mãos de um homem. Em 80% dos casos, os assassinos eram maridos, namorados ou ex-companheiros.
O homem é morto na rua, no assalto, na briga de bar. A mulher morre dentro de casa, vítima de alguém com quem ela dividia a vida.
Esse foi o caso mais espantoso de desinformação que envolveu Juliano Cazarré no debate da GloboNews na terça-feira (12) —afirmar com a cara mais lavada do mundo que mulheres matam mais homens do que o contrário. Mas o que me chamou a atenção não foi a mentira. O sujeito que se dispõe a dar um caminho ao homem perdido está também completamente desorientado. O ator não faz a menor ideia da realidade que as brasileiras enfrentam. Não sabe quem mata, onde mata, quem morre. Não acredito mesmo que aquele espetáculo de desinformação seja parte de uma estratégia maligna de reafirmação do patriarcado que, claro, está no centro do que Cazarré oferece quando promete ao homem voltar a ser farol e forja. Ele está genuinamente perdido.
E é exatamente por isso que ele é tão palatável. Juliano Cazarré acredita mesmo que está oferecendo o retorno do “homem bom”, como ele se descreve. Estende a mão para milhões de sujeitos que com alguma razão não gostam de ser tachados de violentos, machistas, misóginos, jogados no mesmo balaio do agressor que se quer combater. Esses homens existem, são metade do país, e procuram alguém que diga “você não é o problema”. E Cazarré chegou primeiro com essa resposta, vestido de pai de família, com a voz mansa.
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O que ele não entende —e o que esses homens não entendem— é que o combate ao machismo do qual as mulheres falam não é sobre eles individualmente. Pouco importa se o Cazarré é bom marido, se a esposa trabalha fora, se ele troca fralda. Ótimo. Mas não é sobre ele. É sobre uma engrenagem que se sustenta na desigualdade entre os sexos e que produz todo ano 1.500 brasileiras assassinadas só por terem nascido mulheres. A denúncia é à estrutura e não ao indivíduo. Quando o sujeito leva para o lado pessoal está confessando sem perceber que se identifica com aquela estrutura que está sendo combatida.
O tal curso só faria algum sentido se ensinasse esses homens a lidar com o tamanho das conquistas femininas nas últimas décadas e a celebrá-las. As brasileiras chefiam hoje 51,7% dos lares, são 59% das matrículas no ensino superior, maioria na pós-graduação e já ocupam 34% dos cargos executivos. Esse avanço é uma resposta ao patriarcado, não aos homens individualmente. A ascensão feminina não é vingança contra o sexo masculino, é a correção de uma desigualdade que durou séculos. É isso o que Cazarré deveria dizer aos seus alunos. Mas ele prefere prometer a eles a devolução de um mundo que não existe mais, no qual as mulheres ocuparam espaço e do qual não renunciarão.
A nostalgia de Cazarré é o sintoma do medo coletivo. Ao tentar forjar um “homem bom” moldado ao passado, ele apenas perpetua a desorientação daqueles que diz querer guiar. O verdadeiro passo à frente não está em tentar reconstruir um mundo e um modelo masculino que já ruíram, mas em aprender a caminhar num universo em que as mulheres estão, com justiça, transformando. Para deixar de ser um homem perdido, a primeira aula é se aprofundar nas estatísticas.
Já que ele insiste tanto na dicotomia entre o “homem bom” e o “homem mau”, poderia também ocupar uma aula falando dos maus. São eles que insistem em manter os alicerces do patriarcado de pé, e é por causa deles que a estrutura continua produzindo todos os dias vítimas, inclusive entre os tais “homens bons”, que herdam um mundo cada vez mais hostil às mulheres que amam.
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Fonte ==> Folha SP