Estou adorando ter que dedicar meu tempo para cumprir o prazo para entregar meu livro-texto de neurociências à editora. É minha oportunidade de catalogar, sistematizar, interpretar, resumir, escrever e ilustrar tudo o que eu aprendi sobre neurociência em meus 20 anos pesquisando de que cérebros são feitos. Uma lista de fatos, ou informação, não me contenta, pois a Wikipedia tem isso, e ainda de forma surpreendentemente livre de lixo e IA, curada por pessoas de verdade que se importam com o que escrevem.
O que quero transmitir é conhecimento, que são os fatos postos em prática para construir novos conceitos e entendimentos, para responder àquelas perguntas perniciosas, sobretudo as fáceis de arranjar uma estorinha para explicar após o fato, mas sem explicação para como a coisa veio a ser.
Por exemplo: se o tubo que dá origem ao cérebro no nosso desenvolvimento forma uma sequência de estruturas centradas no meio do corpo –um tronco cerebral, um cerebelo, um hipotálamo–, então como se explica que o córtex cerebral seja dividido em dois hemisférios?
Acho a estorinha tradicional, “porque é importante/vantajoso ter os hemisférios separados, cada um controlando um lado do corpo”, profundamente insatisfatória. Primeiro, ela é desnecessária: todo o resto do cérebro controla perfeitamente os dois lados do corpo dali mesmo, na linha média do corpo. E segundo, ela não explica nada. Mesmo a mais vantajosa das características precisa surgir primeiro. Portanto, de novo: como se faz que só o córtex cerebral se desenvolva dividido em dois hemisférios?
Acontece que não é só o córtex. Os dois olhos surgem daquele um único campo ocular, bem no início do tubo neural do embrião que forma todo o cérebro e medula espinal, como a pontinha do filete de pasta de dente equilibrado sobre a escova, como expliquei aqui semana passada. A divisão acontece com a migração de células de baixo para cima na ponta do tubo neural, num processo equivalente às primeiras cerdas da escova de dentes embaixo do dentifrício, bem na frente e no centro da escova, começarem a migrar para cima da pasta, dividindo a frente do filete em duas partes. Se essas células não migram, o campo ocular continua um só, e tem-se a ciclopia.
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Hmmm. Acontece que no tubo neural, logo acima e atrás da futura retina, vêm os futuros hemisférios cerebrais. Será que a continuação da mesma migração que separa os olhos também separa os hemisférios? Se for o caso, então TODO animal ciclope deveria também ter um único hemisfério cerebral! Pronto, eu tinha em mãos uma hipótese científica altamente testável. Teriam os estudiosos da ciclopia também aberto o cérebro e documentado seu desenvolvimento? Fui ao Google buscar por “ciclopia single cerebral hemisphere”, segurando o coração na garganta pelos dois segundos que levou para a resposta aparecer.
Bingo: absolutamente todo animal ciclópico também tem uma malformação conhecida como holoprosencefalia, anatomês para exatamente “um único hemisfério cerebral”. Rara, mas bem documentada, a holoprosencefalia é, para os clínicos e para a IA, apenas uma anomalia. Para mim, munida de uma pergunta específica e uma hipótese por testar, ela é uma resposta. O topo da frente do tubo cerebral se divide em dois conforme uma coluna de células marcha pelo meio, logo após ter separado um olho em dois. Desnecessário, mas ainda funcional, que é tudo o que importa.
Fonte ==> Folha SP