Se as notícias recentes se confirmarem, inclusive sobre o vínculo com milicianos, a “Turma” de Daniel Vorcaro será a organização criminosa mais sofisticada da América Latina. Coloca Comando Vermelho, PCC, cartéis do narcotráfico e até Pablo Escobar no chinelo.
A razão é simples: ao contrário de todas essas organizações, o ex-banqueiro não surgiu em um movimento de ascendência, não veio do tráfico de drogas, do roubo de cargas ou qualquer outro crime, e arrecadou dinheiro que depois foi usado para gerar influência e organização.
Ele veio de cima, dos próprios gestores do dinheiro, e fez dois movimentos: um lateral, dirigindo-se para a esfera política com objetivos, de início, financeiros (ganho indireto com manipulação oficial); e, depois, um político, com autoproteção contra eventuais ações policiais ou investigativas. Tornou-se, assim, um parasitário do Estado.
Isto, em si, não é propriamente novidade. Outros o fizeram, mas existe uma aparente ligação com milicianos e uma espécie de tropa de choque para a prática de atos violentos. Então, é de se reconhecer que a atuação que começou “por cima” desceu aos porões com projetos criminosos de perfil que poderíamos chamar de “baixo clero”. Ações intimidatórias com agressões, ameaças e, inclusive, em favor de interesses pessoais de baixo impacto, como contra um cozinheiro, uma empregada etc.
Isso é novidade: alguém que nasce em estratos superiores e desce ao rés do crime vulgar. O resultado é que, caso comprovadas as reportagens, pela primeira vez teremos a referência de alguém que navega por todas as esferas e níveis da criminalidade. Alguém que é capaz de falar com autoridades do primeiro escalão da República e pagar honorários multimilionários, assim como cercar-se dos melhores escritórios de advocacia, com pagamentos igualmente espantosos.
Ao mesmo tempo, é capaz de usar o telefone para dar ordens de intimidação e agressão; inclusive contra jornalistas que o incomodassem (o que, felizmente, não chegou a ser levado a cabo). Isso sem falar em campanhas publicitárias de cunho difamatório contra instituições como o Banco Central.
O arco entre o crime “rés do chão” e a criminalidade organizada de espectro político se concluiu com uma ação estatal parasitária. Até hoje, algo que ninguém conseguiu; nem PCC nem CV (dos quais não se espera nenhum pudor) chegaram perto dessa qualidade. Pablo Escobar tentou imiscuir-se na política e até se elegeu deputado suplente, mas nunca conseguiu ser aceito na elite política colombiana e estava longe de exercer influência nessa área. Vorcaro conseguiu.
A questão é: como a sociedade vai reagir?
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Fonte ==> Folha SP