Na semana passada (“De Gardel a Montiel”, 26/2), ao dizer que nunca ouvira falar de Bad Bunny, temi que uma massa de leitores me caísse em cima –como era possível não saber do maior fenômeno musical de nosso tempo? E só soube por ele ter desafiado Donald Trump, o que logo o tornou merecedor de minha admiração. Confesso que, por enquanto, ainda não ouvi Bad Bunny emitir uma só nota como cantor, e talvez seja melhor assim. Pois não é que vários leitores admitiram a mesma deficiência –que também tinham acabado de ser apresentados a Bad Bunny?
O problema não é o Bad Bunny. Somos nós. Vivemos sob um tufão de informações, em que os personagens entram e saem do noticiário com uma velocidade difícil de acompanhar. Pouco antes do Carnaval, por exemplo, ouvi falar de Virginia, namorada do craque Vini Jr. De repente, fui assolado de notícias sobre a mesma Virginia, agora como rainha de bateria da Grande Rio, e só então descobri que era uma influenciadora com 55 milhões de seguidores e a maior celebridade do Brasil depois de Lula e Bolsonaro. Por onde andei nos últimos meses que não fui influenciado por Virginia?
E mais. Sei muito bem que Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e João Carlos Mansur, do caso Master, são três bombas que explodirão no colo de quem fez negócio com eles. Mas, como perdi o começo do caso, não conseguirei dizer direito por quê. O mesmo quanto a Rodrigo Bacellar e o pitoresco TH Joias, dois elementos acusados de organização criminosa, comércio de drogas, tráfico internacional de armas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e relações amorosas com o Comando Vermelho. Como sujeitos com tal currículo nunca fizeram parte da minha cultura?
E, mal me familiarizei com esses nomes, surge nas manchetes um certo Adilsinho, magnata do contrabando e da falsificação de cigarros, manipulando bilhões de reais e, como todo bandido, com montanhas de dinheiro vivo em casa.
É como se houvesse um outro Brasil, paralelo ao real. Só não sei qual é o Brasil paralelo ou o real.
Fonte ==> Folha SP