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Eleja quem luta pela sua vida – 05/06/2026 – Txai Suruí

Grupo numeroso de deputados em pé atrás da mesa principal do plenário, muitos com os punhos erguidos em comemoração. Na frente, público e outros parlamentares também registram o momento com celulares. Ambiente interno com iluminação artificial e estrutura típica de assembleia legislativa.

A política brasileira viveu, em menos de 48 horas, a síntese perfeita de seu antagonismo de classes. No dia 27 de maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou de forma esmagadora a PEC pelo fim da escala 6×1, uma vitória histórica dos movimentos sindicais e da luta por redução da jornada sem perda salarial. No dia seguinte, 28 de maio, um grupo de 41 senadores, liderado por Rogério Marinho (PL-RN) e com a assinatura do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apresentou a PEC 12/2026. O objetivo era claro: responder à conquista popular com um golpe ainda mais violento contra os direitos trabalhistas.

Apelidada de PEC da Escravidão, PEC 7×0 ou PEC das Horas Trabalhadas, a proposta não apenas elimina o descanso semanal remunerado, permitindo jornadas contínuas de sete dias, como também rebaixa o salário mínimo a valor-hora, reduz verbas rescisórias (férias, 13º, FGTS) e, o mais perverso, substitui a negociação coletiva por acordos individuais entre patrão e empregado. Sob a retórica da “liberdade” e “flexibilização”, o que se esconde é a tentativa de legalizar, com caneta e Constituição, o regime de exaustão que já escraviza milhares de trabalhadores neste país.

Para entender o que isso significa na pele de quem trabalha, trago também a perspectiva indígena. Os povos originários nunca tiveram o direito de “escolher” sua exploração. Durante séculos, o Brasil justificou o trabalho forçado indígena como “integração” ou “oportunidade”, sequestrando crianças classificadas como “órfãs” mesmo com pais vivos para alimentar o criadismo. Hoje, essa mesma lógica se repete nas safras de uva, maçã e cana: indígenas são recrutados com promessas, endividados e submetidos a jornadas exaustivas sem folga, alojamentos precários e exposição a agrotóxicos.

Desde 2004, mais de 1.600 indígenas foram resgatados de trabalho análogo à escravidão no Brasil, mas esses números são a ponta do iceberg. A PEC 12/2026 pega essa realidade e a transforma em lei, retirando a vergonha de explorar. O que está em jogo nas eleições de 2026, portanto, não é uma disputa ideológica qualquer. É a linha entre um Congresso que aprova o fim da escala 6×1 (redução da jornada com qualidade de vida) e um Congresso que aprova a escala 7×0 (escravidão moderna). Entre um Congresso que protege salário mínimo, 13º e férias, e um Congresso que transforma tudo isso em moeda de troca em “acordos individuais” entre o patrão e o faminto.

A PEC já está na CCJ do Senado, aguardando relator. Se for aprovada, será promulgada e irá enterrar décadas de conquistas. A única barreira real é a pressão popular e mudar a composição do Congresso nessas eleições. É urgente derrotar nas urnas aqueles que atentam contra a vida do trabalhador, da floresta e contra o futuro.

A história nos ensina, também pela dor dos povos originários, que trabalho sem descanso, sem terra, sem coletividade e sem negociação é apenas outra forma de cativeiro. Transformar o Congresso em 2026 não é uma opção. É uma questão de sobrevivência. Pelo fim da escala 6×1. Contra a PEC 12/2026. Eleja quem luta pela sua vida.



Fonte ==> Folha SP

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