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Escândalo e Intriga: entrevista com atores do k-drama – 27/09/2026 – K-cultura

Um nobre libertino e uma viúva cristã descansam deitados no chão, nus. Os espectadores veem suas silhuetas de lado e de costas. O homem acaba de tirar a virgindade da jovem atormentada, uma aposta elaborada com a mulher por quem ele é realmente apaixonado.

A trama é antiga, tirada de “As Ligações Perigosas”, livro publicado em 1782 pelo francês Pierre Choderlos de Laclos. No centro estão a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont, cujo passatempos são jogos de sedução que destroem vidas. Agora, a história é reimaginada em “Escândalo e Intriga”, novo k-drama da Netflix.

O clássico francês ganhou dezenas de adaptações para as telas e os palcos —incluindo uma minissérie brasileira. Uma das versões mais famosas é o filme hollywoodiano “Ligações Perigosas” (1988), com Glenn Close e John Malkovich, vencedor de três estatuetas do Oscar.

Nele e no original, a dupla é cruel pelo prazer da crueldade e a aposta é motivada por vingança. No k-drama, o desafio ganha mais contexto. Lady Cho pede a Cho-won que engravide uma concubina que arranjou para o marido infértil. Ele debocha e sugere um plano mais desafiador: conquistar Hui-yeon, a nora viúva e casta de um ministro, que despertara interesse nele momentos antes.

Lady Cho alerta sobre o perigo da ideia, mas Cho-won enxerga como ciúmes. Se completar a missão, o nobre pede como prêmio a própria Cho, única coisa que ele deseja, diz. Neste momento, a mulher desliza um pé por baixo do hanbok (veste tradicional coreana), provocando-o e aceitando a condição. Se falhar, ele engravida a concubina.

Alvo da dupla, Hui-yeon é uma mulher angustiada pela morte do cônjuge, a quem nem chegou a conhecer. Ela internaliza a ideia de que só seria feliz servindo a um marido. Por isso, a solução que resta é tirar a própria vida. Cho-won a impede e inicia suas investidas insistentes, jurando amor. Ela resiste ao máximo.

Nesse sentido, a produção é mais próxima da adaptação sul-coreana “Untold Scandal” (2003), que atraiu cerca de 4 milhões aos cinemas. As semelhanças estão no contexto histórico, personagens e motivações.

O livro de Laclos causou frisson ao expor a libertinagem e a superficialidade da nobreza numa França às vésperas da Revolução Francesa (1789-1799). A série da Coreia do Sul transporta as intrigas para a dinastia Joseon (1392-1897), a mais longeva da nação asiática.

Para Son Ye-jin, que interpreta Lady Cho, a adaptação da Netflix trata sobretudo de desejos —considerados tabus durante essa dinastia. “É daí que vem a ironia: transformar em tabu aquilo que todos desejam”, diz ela. A atriz de 44 anos é mais conhecida no Brasil por “Pousando no Amor”, clássico pelo qual muitos se iniciam no universo dos k-dramas.

“Quando pensamos nos sentimentos universais, queremos alcançar a autorrealização, satisfazer nossos desejos e viver o amor. Mas, durante a era Joseon, tudo isso era restrito, reprimido”, explica Son. Era uma época austera, na qual as pessoas se casavam sem amor, ela diz. “Quando reprimimos todos esses instintos naturais e os transformamos em tabu, o desejo, na verdade, cresce ainda mais.”

O período é frequentemente revisitado em séries e filmes. “Dizem que durante a era Joseon, havia muitos escândalos e casos extraconjugais”, comenta a atriz. “Por isso ambientar tantas narrativas na dinastia Joseon torna tudo mais interessante. Era preciso lidar com tudo isso em absoluto segredo. São esses desejos conflitantes que tornam a história mais envolvente.”

O cenário é Bukchon, então endereço da nobreza. O bairro preserva parte das hanoks, casas tradicionais centenárias, e é um dos principais pontos turísticos de Seul. A vila é retratada como “um lugar muito divertido e cheio de escândalos”, diz Ji Chang-wook. A série apresenta como era a dinastia e a vida da população naquela época, mas também traz um pouco de sátira, completa o ator.

Retratar esse período não foi tanto um desafio, conta Ji, mas sim o “complexo turbilhão de emoções” de Cho-won. “Ele é um personagem cheio de nuances”, diz o ator de 39 anos. O galanteador ganha um arco adicional, que mostra sua relação com o rei. Ji também tem currículo extenso, percorrendo diversos gêneros.

Já Nana, 35, celebra seu papel como Hui-yeon e a chance de “vivenciar indiretamente a era Joseon”. “Foi uma ótima experiência fazer parte daquela época, e isso me trouxe muita gratidão e satisfação pela minha vida e pelos tempos atuais”, afirma. Seu nome é atrelado à carreira no k-pop, que iniciou em 2009, no grupo After School. Hoje, se dedica à atuação, participando de k-dramas como “Mask Girl”.

A série amplia a história original e explora o início da relação entre Lady Cho e Cho-won, primos que se apaixonam quando adolescentes. Esse amor, porém, só poderia se concretizar na morte, conclui a garota.

Eles decidem encarar os tabus e fugir juntos, mas ela entende que é melhor ficar. Cho-won fica ressentido com a amada, e é esse coração partido que o leva à vida de libertinagem. O garoto inseguro se transforma no maior playboy de Joseon.

Inteligente, Lady Cho percebe desde cedo suas limitações na sociedade por ser mulher. É ensinada a ficar quieta, baixar a cabeça e servir ao marido. Só por saber ler, é considerada ousada. “Se tivesse nascido homem, tudo seria diferente”, lamenta o pai. “Sua mente é muito aberta, parece até um homem”, escuta de outros. Resignada, ela aceita um casamento arranjado por uma família que aceita recebê-la.

Na obra francesa, a Marquesa também precisa manter uma fachada. Na vida privada, satisfaz seus desejos com vários amantes. Seu comportamento é igual ao do Visconde, mas só ela seria julgada por tal. Os longas hollywoodiano e coreano mostram esse lado dela, abandonado no k-drama.

Apesar disso, a série dobra a aposta nas cenas de sexo e nudez. O sexo cerca o trio protagonista: os criados que descobrem o prazer, escondidos na mata, o filho do ministro que se entrega à concubina.

“Escândalo e Intriga” foge à norma dos k-dramas. Corpos nus e sexo mais explícito são raros nos romances e comédias românticas do gênero, que retratam relações por vezes infantilizadas. Para muitas fãs dessas produções, é essa “ausência de putaria” o que as atrai.

Por isso, a adaptação tem sido considerada ousada pelo público. Quem dirige é o cineasta Jung Ji-woo, que abordou relações disfuncionais, sexo e traições em filmes como “Happy End” (1999) e no k-drama “Somebody” (2022), também da Netflix.

Para Ji, o tema central de “Escândalo e Intriga” é o amor. “O amor do meu personagem pelas duas belas mulheres, além da química entre nós três e das dinâmicas de poder”, diz. As mentiras crescem e envolvem todos ao redor –até mesmo o rei–, com consequências catastróficas.

Nana recomenda observar a maneira como os três personagens terminam a história diferentes de como eram no início. Ela diz: “Tudo começa com uma simples aposta, que depois se transforma em algo enorme, repleto de altos e baixos emocionais”.



Fonte ==> Folha SP

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