Com direção certeira de José Possi Neto e texto de Gustavo Pinheiro, “Dois de Nós” é uma comédia ácida que escancara as contradições do amor e do tempo. Dois casais — um na casa dos 70 (Antonio Fagundes e Christiane Torloni) e outro aos 40 (Thiago Fragoso e Alexandra Martins) — dividem o mesmo quarto de hotel em épocas diferentes, criando um diálogo geracional cheio de humor e melancolia.
A peça, que retorna para nova temporada no Teatro Tuca, brinca com espelhos: o casal mais velho revê seu passado no par mais jovem, expondo machismo, arrependimentos e a ilusão do “felizes para sempre”. Fagundes e Torloni, juntos no teatro pela primeira vez após décadas na TV, roubam a cena com química e timing cômico, enquanto Fragoso e Martins representam a geração atual, presa entre cobranças sociais e desejos frustrados.
Possi Neto equilibra riso e drama sem pieguice, usando o cenário minimalista (um quarto de hotel) como arena para conflitos universais. Embora alguns diálogos possam soar previsíveis, a força do elenco e a direção precisa conseguem transformar clichês em reflexões potentes. E o elenco é um deleite.
No fim, “Dois de Nós” é sobre como o amor envelhece — e como rir disso pode ser a única saída. Imperdível para quem já amou, errou ou se reconheceu no espelho de um relacionamento.
Importante: se for ao espetáculo, não se atrase!
Três perguntas para…
… Christiane Torloni
Como está sendo a experiência de subir ao palco com o Antonio Fagundes? O que o teatro proporciona a vocês, como dupla artística, que a TV não permite?
Estar com o Fafá no palco é o cumprimento de uma promessa mágica que fizemos há 44 anos, quando éramos dois jovens atores com uma sinergia magnífica. O tempo precisou passar para que estivéssemos prontos um para o outro, com nossas sólidas carreiras, para viver esta experiência. Terminamos agora uma digressão de 62 espetáculos em Portugal, para mais de 70 mil espectadores, o que confirma o amor que aqui se construiu pela televisão brasileira ao longo de décadas. Estamos colhendo os frutos de uma primavera cultural.
A televisão não permite a interação viva com o público. No palco, somos duas crianças brincando, nos desafiando e rindo. A grande diferença, o que só o teatro permite, é esse encontro tete-a-tete, corpo a corpo, com as pessoas ali na nossa frente. É maravilhoso.
A peça aborda o casamento em diferentes gerações. O que você enxerga de mais verdadeiro e atemporal nas crises e alegrias conjugais retratadas por Gustavo Pinheiro?
O que o texto do Gustavo Pinheiro traz de mais brilhante é essa quebra do tempo. A discussão sobre o amor e o casamento é permanente, não importa a geração. A fala “cuida dela enquanto houver amor” é a essência. Tive o exemplo dos meus pais, que se cuidaram por 70 anos. Um casal, seja de que tipo for, precisa de um propósito e um sonho em comum. O amor se expressa no cuidado.
Num mundo que está perdendo o desejo do contato físico, o teatro é o antídoto. É a ferramenta do toque, do encontro humano. A peça fala disso: de humanidade. Pessoas que nos viram na TV por anos agora podem estar ali, conosco, sendo tocadas.
Como tantos anos de carreira, o que mudou na sua forma de abordar um novo papel? Qual é o segredo para manter a paixão e a curiosidade pela atuação?
O segredo está sempre na qualidade da dramaturgia. Um bom texto é o que provoca, desafia e faz brilhar os olhos. É paixão à primeira vista. Gustavo é um desses autores que renova o cenário, um criador sensível e intelectual. Seu texto é uma joia que provoca o ator.
Por isso “Dois de Nós” nos move tanto. Estamos com 194 apresentações dando tudo de nós, porque é como pilotar uma Ferrari. Temos o veículo, somos o veículo e a pista. Tudo se completa. Quando um projeto assim aparece, com uma dramaturgia tão rica, a resposta é imediata: um lindo e definitivo sim.
Teatro Tuca – rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes, região oeste. Qui. e sex., 21h. Sáb., 20h. Dom., 17h. Até 17/5. Classificação indicativa: 12 anos. Duração: 90 minutos. A partir de R$ 100 (meia-entrada) em sympla.com.br
Fonte ==> Folha SP