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Lilith: por que uma figura tão antiga continua incomodando o mundo contemporâneo?

Murillo C Freitas

Por Murillo C. Freitas, autor de Lilith: Anjo ou Demônio

Poucas figuras atravessaram tantos séculos cercadas de interpretações contraditórias quanto Lilith. Para alguns, demônio. Para outros, símbolo de rebeldia. Em determinadas leituras contemporâneas, tornou-se representação da autonomia feminina. Entre uma interpretação e outra, entretanto, existe uma longa construção histórica que costuma desaparecer quando tentamos resumir Lilith a uma única definição.

Talvez seja justamente essa dificuldade de enquadrá-la que explique parte de sua permanência.

Antes de tudo, é necessário desfazer uma ideia bastante difundida. A Bíblia não apresenta Lilith como a primeira mulher ou primeira esposa de Adão. Essa narrativa aparece de maneira explícita muito mais tarde, particularmente no Alfabeto de Ben Sira, texto medieval cuja composição costuma ser situada entre os séculos VIII e X.

Isso não significa, porém, que Lilith tenha surgido naquele momento.

Há antecedentes muito mais antigos relacionados a seres femininos da tradição mesopotâmica e, posteriormente, referências no universo judaico que participaram da formação da personagem que conhecemos hoje. Em Isaías 34:14, por exemplo, encontramos o termo hebraico lilit, cuja tradução e interpretação variaram consideravelmente ao longo do tempo.

É importante fazer essa distinção porque mito, tradição religiosa, folclore e história não são a mesma coisa. Quando misturamos essas categorias, começamos a tratar narrativas construídas em épocas diferentes como se fossem uma única história contínua.

De figura temida a símbolo de autonomia

Durante séculos, características associadas a Lilith estiveram relacionadas ao perigo, à noite, à sexualidade e ao feminino considerado ameaçador. Posteriormente, sua história foi sendo reinterpretada.

A narrativa medieval que a relaciona a Adão tornou-se particularmente importante porque apresenta um elemento que ainda provoca discussão: Lilith recusa uma posição de submissão.

Independentemente de acreditarmos ou não nessa narrativa como expressão religiosa, seu conteúdo simbólico é poderoso. Estamos diante de uma mulher que diz não.

E um “não” pode adquirir significados muito diferentes dependendo da sociedade e do período histórico em que é pronunciado.

Aquilo que determinada cultura interpreta como insubordinação pode ser compreendido por outra como autonomia. O comportamento considerado perigoso em determinado período pode, séculos depois, ser interpretado como afirmação da própria identidade.

É nesse ponto que Lilith deixa de ser apenas uma personagem pertencente a antigas tradições e passa a funcionar como símbolo.

O que Lilith revela sobre nós?

Existe uma pergunta que considero mais interessante do que simplesmente decidir se Lilith foi anjo ou demônio: por que continuamos falando sobre ela?

Talvez porque determinados mitos sobrevivam justamente por carregarem conflitos que ainda não resolvemos.

Lilith toca em questões que permanecem presentes nas relações humanas: poder, desejo, sexualidade, liberdade, culpa, submissão, controle e autonomia.

Sob uma perspectiva psicológica, podemos ainda observar outro aspecto. O ser humano não é constituído apenas pelas características que aceita e demonstra socialmente. Também carregamos desejos, impulsos, medos, raiva, fantasias e contradições que muitas vezes preferimos esconder.

Na psicologia analítica, a ideia de sombra ajuda a compreender esse fenômeno. Aquilo que rejeitamos em nós não necessariamente deixa de existir porque foi reprimido. Muitas vezes continua operando de maneira menos consciente.

É possível compreender Lilith, nesse contexto, como uma representação simbólica de conteúdos que determinadas sociedades tiveram dificuldade de acomodar, particularmente quando relacionados à autonomia, à sexualidade e à expressão do feminino.

Isso não significa transformar Lilith em diagnóstico psicológico, muito menos afirmar que Carl Gustav Jung tenha desenvolvido uma teoria específica sobre ela. Significa utilizar a leitura arquetípica como uma das possibilidades para compreender por que determinadas figuras míticas continuam produzindo identificação muito depois do desaparecimento das sociedades que originalmente lhes deram forma.

Nem santa, nem demônio
Existe atualmente outra simplificação que merece atenção.

Durante muito tempo, Lilith foi demonizada. Em determinados discursos contemporâneos ocorreu o movimento contrário: ela passou a ser idealizada.

Os dois extremos podem empobrecer a discussão.

Retirar Lilith da condição de demônio para transformá-la em heroína absoluta continua sendo uma maneira de aprisioná-la dentro de uma definição pronta.

Talvez sua riqueza esteja justamente na ambiguidade.

Lilith reúne elementos desconfortáveis. Liberdade e consequência. Desejo e medo. Autonomia e ruptura. Sedução e ameaça. Não precisamos eliminar essas contradições para compreendê-la.

Ao contrário. Precisamos examiná-las.

Estudar um símbolo não significa cultuá-lo, condená-lo ou concordar com todas as interpretações construídas ao seu redor. Significa procurar entender o que ele representou em diferentes momentos e por que continua sendo reinterpretado.

É exatamente por isso que considero Lilith tão atual.

Talvez ela tenha atravessado tantos séculos não porque encontramos uma resposta definitiva sobre quem ela é, mas porque ainda estamos tentando responder às perguntas que sua história provoca.

E algumas delas permanecem desconfortavelmente contemporâneas.

Quanto de nossa identidade realmente escolhemos?

Quanto aprendemos apenas para sermos aceitos?

O que uma sociedade faz com aqueles que recusam o lugar que lhes foi determinado?

E quando alguém deixa de aceitar esse lugar, estamos diante de rebeldia, liberdade ou simplesmente do exercício de escolher?

A resposta provavelmente depende menos de Lilith do que de quem está olhando para ela.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Lilith – Anjo ou Demônio, de Murillo C. Freitas, publicada pela Editora Appris. Disponível para compra em: https://a.co/d/08T5wvRP

Murillo C. Freitas

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Murillo C. Freitas é escritor, terapeuta, professor e pesquisador das ciências ocultas, com atuação desde 2016 nas áreas de Hipnose Não Verbal, Magnetismo Humano, Fascinação Mental, Hipnose e Espiritualidade, Kundalini e Alta Magia. Estuda espiritualidade, esoterismo, simbolismo e comportamento humano há mais de cinco décadas.

Fundador da Escola Superior das Ciências Ocultas, dedica parte de sua produção intelectual à aproximação entre tradições esotéricas, psicologia, filosofia, espiritualidade e investigação dos estados de consciência. É autor de seis livros, entre eles O Despertar da Kundalini – Guia para Ascensão Espiritual e Lilith – Anjo ou Demônio, além da trilogia Kundalini Negra. Como professor, ministra cursos e formações em diferentes regiões do Brasil.

Contatos
Site: www.murilloterapeuta.com.br
E-mail: murillocfreitas@gmail.com
Instagram: murillocfreitasterapeuta
WhatsApp: (11)96770-6770

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