Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Lula pato manco e a disputa presidencial – 08/06/2025 – Marcus Melo

Um homem de cabelo grisalho e barba, vestido com um terno escuro e gravata, está em pé atrás de um púlpito de vidro. Ele parece estar fazendo um discurso. Ao fundo, há bandeiras do Brasil, da França e da União Europeia. Uma placa na frente dele diz

Rigorosamente falando há pouquíssimos elementos que moldam a atual conjuntura que já não estivessem presentes antes mesmo da investidura formal do atual governo. Trata-se de um governo hiperminoritário, no qual o partido do presidente detém 13% das cadeiras e cujo núcleo duro congressual não chega a ¼ delas. Os problemas fiscais foram gestados antes mesmo da própria investidura presidencial com a aprovação de expansão do gasto de $150 bilhões. Essa insólita e anômala inversão —expandir gasto no início do mandato é padrão universal— já sugeria um governo vulnerável. No derradeiro ano de governo obtém-se assim uma combinação de vulnerabilidades fiscais e políticas.

O traço principal da disputa presidencial que se inicia é o fato de que o Lula é percebido como pato manco. O termo está associado a regras institucionais que vedam a postulação à reeleição de um incumbente. Tecnicamente Lula não é pato manco já que pode concorrer à reeleição. Mas muitos atores relevantes enxergam possibilidades efetivas de que não seja reeleito, quaisquer que sejam as razões para isso. O mais importante aqui são seus efeitos sobre os incentivos. Esses efeitos são semelhantes para o pato manco clássico e o “pato manco de facto”.

Em uma situação em que o presidente é minoritário e, portanto, tem que contar com uma coalizão de partidos, o poder gravitacional do presidente reduz-se significativamente na medida em que suas chances de vitória são declinantes ou nulas. Por isso, o que importa efetivamente é a tendência de popularidade e avaliação de governo. Além de obviamente da arquitetura da escolha: quem são os adversários que em última instância irão para o segundo turno. Parlamentares possuem informação privilegiada sobre a questão.

No caso de Lula 3, a fragmentação da frouxa e inédita coalizão de 18 partidos (eram 8 e 9, sob Lula 1 e 2) vem desde a investidura. Mas se intensificou. Os partidos aguardam estrategicamente até o ponto em que a defecção é inevitável, para depois desembarcar do governo. O custo do apoio aumenta. Para garantir alguma governabilidade ainda em 2025 e no ano eleitoral o governo poderá compartilhar mais o governo, o que terá como consequência a diluição de sua identidade. Seria uma derrota auto-inflingida.

Para além do cafezinho frio da crônica política há sinais mais tangíveis e relevantes de desembarque da base. O mais saliente deles no atual contexto é a inédita recusa de pasta ministerial por parte de um líder partidário. Mas o fato de que na posse do presidente do PSB nesta semana apenas 4 dos 15 parlamentares do partido da base postaram fotos com o presidente nas suas redes não passa despercebido.

O mais curioso do ponto de vista comparativo é o fato inusitado de que rivais potenciais são da própria coalizão, cujos partidos ocupam ministérios. O governo nunca foi efetivamente de coalizão no sentido forte da expressão. Não há acordos programáticos, como por exemplo na Alemanha, mas sobre a distribuição dos spoils of office, como mostrei aqui. Funciona como uma estrutura de travas mútuas cruzadas. Como a literatura sobre patos mancos e governos minoritários sugere, o resultado só não é calamitoso se os custos da inação política (gridlock) forem menores do que os riscos de medidas por parte do Executivo.



Fonte ==> Folha SP

Relacionados

Principais notícias

Inteligência artificial redefine o setor bancário e amplia a eficiência na gestão de riscos
Arena R1 reúne cerca de 600 empresários em São Paulo para imersão sobre estratégia, alta performance e mentalidade de execução
Envelhecimento da população pressiona sistemas de saúde e exige novos modelos de cuidado contínuo no Brasil e no mundo

Leia mais

Dupla argentina apaga vídeo em que acusa Anitta e Shakira de plágio
Dupla argentina apaga vídeo em que acusa Anitta e Shakira de plágio
Lula diz a aliados que vai reenviar ao Senado indicação de Messias para vaga do STF
Lula diz a aliados que vai reenviar ao Senado indicação de Messias para vaga do STF
A próxima semana será bem melhor! 3 signos que vão recuperar a esperança
A próxima semana será bem melhor! 3 signos que vão recuperar a esperança
Dino abre apuração sobre emendas para produtora do filme de Bolsonaro
Dino abre apuração sobre emendas para produtora do filme de Bolsonaro
Trabalhadores por conta própria têm as maiores jornadas no país
Trabalhadores por conta própria têm as maiores jornadas no país
Valdemar Costa Neto diz que vê Nunes Marques mais aberto a voto impresso
Valdemar Costa Neto diz que vê Nunes Marques mais aberto a voto impresso