No início de agosto, duas pessoas encontraram uma mala contendo o que pensaram ser o corpo mutilado de uma mulher em uma cidade ao sul de Sydney, na Austrália. No dia seguinte, a polícia divulgou que o corpo era, na verdade, uma boneca sexual com hematomas falsos. Segundo a reportagem do jornal The Guardian, publicada em 29 de agosto, não se sabe por que a boneca foi descartada. Teria sido apenas uma forma de se desfazer da boneca ou a encenação de um ato de violência contra uma mulher? O episódio, porém, levanta uma questão que vai além do destino da boneca.
A reportagem encaminhada pela colega da Folha, Rosana Hermann, me ajudou a compor esta coluna. As bonecas podem ser uma representação simbólica da forma como uma parcela dos homens enxerga as mulheres: submissas e objetificadas. Uma das preocupações levantadas por pesquisadores é a possível relação entre como alguns homens tratam essas bonecas e suas atitudes em relação às mulheres. Assim, o caso da boneca mutilada remete a uma preocupação muito mais concreta: a violência contra as mulheres.
No Brasil, os casos de violência contra a mulher têm ganhado cada vez mais repercussão na mídia, tanto por sua frequência quanto pela violência exacerbada que caracteriza muitos deles. Há a sensação de que a sociedade está cada vez menos disposta a tolerar esse tipo de violência. A legislação tem evoluído nesse sentido, especialmente desde a criação da Lei Maria da Penha. Essa mudança também se reflete na política. Em resposta ao aumento da repercussão do tema, têm aumentado as propostas e as discussões sobre ele entre os candidatos à eleição.
Nos últimos anos, em períodos pré-eleitorais, afloram discussões e até mesmo rupturas decorrentes de pensamentos cada vez mais polarizados. A violência contra a mulher, porém, é um dos poucos temas que parecem gerar consenso entre a esquerda e a direita. Nesse contexto, os candidatos, tanto ao Governo de São Paulo quanto à Presidência da República, apresentam propostas para reduzir os casos de violência e de feminicídio. Entre elas estão a ampliação do número de delegacias da mulher e a extensão do horário de atendimento. Também aparecem a ampliação da rede de proteção às mulheres, o monitoramento eletrônico dos agressores, o confisco de seus bens e até o uso de drones. Nesse último caso, não ficou claro para mim como os drones seriam utilizados.
Apesar dos avanços na legislação e no debate político, proliferam nas redes sociais comunidades ligadas à chamada manosfera, que disseminam discursos misóginos e de objetificação das mulheres. O Congresso também discute medidas para enfrentar o problema, como o PL 896/2023, que prevê punições por crimes praticados em razão de misoginia. Além disso, é importante que os candidatos discutam também medidas de prevenção, como ações educativas nas escolas sobre consentimento, misoginia e respeito, além da ampliação de programas de recuperação e reeducação para autores de violência doméstica.
A violência contra a mulher, em geral, não começa com agressões físicas. A objetificação das mulheres e como são representadas também fazem parte desse problema. O enfrentamento à violência contra a mulher deveria, portanto, apoiar-se em três pilares: prevenção, proteção da vítima e responsabilização dos autores da violência. Quando não é contida, a violência fere e mata mulheres.
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Fonte ==> Folha SP