A Mulher-Maravilha enfrenta um exército masculino com sua “metralhadora de mentiras”. Esta adaptação abrasileirada estreou o perfil Imparáveis no Instagram, que Michelle Bolsonaro amadrinhou. Um “MB” rosa serve de logo. Foi resposta aos golpes chovinistas sofridos.
A mulherada da esquerda se solidarizou, puxada por Marina Silva. Janja se perfilou. Fez bem e depois foi mal. Arrogou-se primeira-dama pioneira no ato de trabalhar. Isso porque restringiu a atividade a bate-ponto da classe trabalhadora. Mas há outras modalidades de política além da fabril e as mulheres as usam faz tempo.
Nas sociedades nobiliárquicas, muitas damas faziam a política de salão: armavam alianças e produziam opinião entre um quitute e uma dança. Apelidou-se a prática de “lobby”, por ocorrer em rodinhas nas entradas e antessalas. As ladies assim exerciam poder dentro de seu grupo social. Com os de baixo o jogo era outro: a distribuição discricionária de recursos, por meio da filantropia.
A política das mulheres se diversificou na modernidade, incorporando técnicas de mobilização social. As sufragistas usaram as ruas para abrir a batalha por direitos específicos. Desde então, esse ativismo mobilizador e suas pautas seguiram crescendo, ao largo dos homens e pendendo à esquerda.
Outra trilha manteve as estratégias aristocráticas, com redes familiares e eventos culturais (agora os religiosos) como espaço para alianças e influência. O foco ficou nos temas domésticos: família, educação, assistência social. Uma política de esposas e mães esmaltadas e maquiadas e ainda subordinada ao mando masculino, por isso palatável para a direita.
Mas, nas últimas décadas, a política feminina conservadora adotou estratégias mobilizadoras típicas da esquerda, como a multiplicação de comitês e de eventos de “empoderamento” de lideranças locais.
Damares Alves construiu e dirige uma enorme coalizão nacional antiaborto. Michelle surgiu da costela do marido, mas, já na posse de 2018, exibiu agenda própria, ao fortalecer a Libras na comunicação estatal. Controlada durante o governo Bolsonaro, desabrochou desde a sua prisão. Viajou o país e edificou uma rede de candidatas jovens e ativas que os partidos de direita negligenciavam.
A grande rede de Michelle e Damares esbanja o que falta a Flávio Bolsonaro: religiosidade genuína e capilaridade nas bases. Com docilidade e arrojo, as duas se firmaram como lideranças e geraram uma máquina política feminina conservadora. Assim, ao mesmo tempo que disputam a prerrogativa de representação de gênero com movimentos de mulheres de esquerda, colaboram para erodir o domínio político masculino.
Sem deixar o posto de rainhas do lar e a educação dos filhos, muitas trabalham e prescindem economicamente dos maridos, além de serem senhoras de sua sexualidade (Flordelis, amiga de Michelle, não é exemplar, mas descortinou uma intimidade bem agitada). Tanta autonomia incomoda os homens da direita, que perderam o controle de ovelhas antes submissas.
Os ataques misóginos e cruéis a Michelle, Damares e às suas filhas ocorrem neste cenário em que o poder masculino sobre as mulheres conservadoras está se esfumando. Seu avanço para a articulação política independente foi a gota d’água. É fogo amigo, de senhores tentando recolocar as senhoras em posição de obediência.
Essa violência, que Damares rotulou à maneira da esquerda como “de gênero”, vai sujeitá-las? Ambas falam em união, em vez de confronto, com a ala masculina, mas unir não é subordinar.
Nesta eleição, talvez as duas guardem suas armas, mas estão cientes de seus superpoderes. Damares já está no Senado e Michelle tem tudo para chegar lá, onde estará protegida e cacifada para a Presidência em 2030.
Para os homens de direita, como para as mulheres de esquerda, Michelle e Damares são um risco político tangível. Seu movimento tem cara de protótipo de partido e promete ser imparável.
Fonte ==> Folha SP