Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

O ódio é inerente à humanidade, mas precisa ser civilizado – 31/10/2026 – Opinião

A imagem apresenta uma ilustração estilizada de um rosto humano. O rosto é de cor cinza claro, com um olho laranja e uma sobrancelha rosa. A boca é representada em rosa e está aberta, de onde sai uma explosão de cores quentes, como vermelho e amarelo, formando um padrão de chamas. O fundo da imagem é azul escuro, destacando os elementos coloridos do rosto e da explosão.

A humanidade odeia e, em determinadas circunstâncias, parece gostar de odiar. O ódio produz excitação, identidade e pertencimento. O inimigo organiza o mundo, estabelece fronteiras e oferece uma resposta sedutora à pergunta sobre quem somos: aqueles que não são eles!

O primatólogo Robert Sapolsky mostra que a divisão entre “nós” e “eles” se apoia em processos cerebrais rápidos, anteriores à elaboração consciente. Por um olhar evolucionista, reconhecer aliados e ameaças favoreceu a sobrevivência. O ódio pode ainda mobilizar circuitos associados à recompensa quando a derrota ou humilhação do adversário é experimentada como vitória do próprio grupo. Predisposição, porém, não é destino.

A pensadora Hannah Arendt percebeu a dimensão política desse fenômeno ao estudar o totalitarismo. Solidão, desenraizamento e perda de um mundo compartilhado favorecem pertencimentos que oferecem identidade e uma explicação total da realidade. O inimigo adquire uma função: confere coesão ao grupo e sentido ao ressentimento.

Na raiz do ódio encontramos, frequentemente, o medo. O historiador Jean Delumeau mostrou como sociedades deram nomes e rostos aos seus temores: estrangeiros, hereges, bruxas, epidemias. O medo pertence à experiência humana, mas seu objeto pode ser socialmente construído. Dar um rosto àquilo que tememos encurta a distância entre angústia e perseguição.

A moral tampouco nos protege necessariamente. O psicólogo social Jonathan Haidt demonstrou o peso das intuições e emoções nos julgamentos morais. Muitas vezes sentimos primeiro e argumentamos depois. A razão, em vez de examinar nossas convicções, pode tornar-se advogada delas. Quem odeia pode construir uma moral internamente coerente na qual excluir, humilhar ou agredir se transforma em dever. O outro passa a ameaçar o bem, a família, a pátria, a religião ou a identidade. O ódio recebe uma autorização moral.

A civilização enfrentou esse problema muito antes da neurociência. O sociólogo Norbert Elias descreveu o processo civilizador como uma lenta construção de mecanismos de contenção. Leis, instituições, costumes e interdições não eliminaram a agressividade humana, mas estabeleceram limites para sua expressão. Parte da coerção externa tornou-se autocontrole. Civilizar nunca significou deixar de sentir determinados impulsos. Significou aprender que não precisamos obedecer a todos eles.

O psicólogo Steven Pinker oferece esperança. A violência pode ser contida por instituições, direitos, normas e transformações culturais. Essa conquista, entretanto, não é natural nem irreversível.

As redes sociais expõem sua fragilidade. Distância física, anonimato, pertencimento grupal e recompensa pela visibilidade enfraquecem mecanismos de contenção. “Falar o que pensa” tornou-se virtude, como se transformar imediatamente impulso em palavra fosse sinônimo de autenticidade. Na política, a agressividade verbal pode funcionar como certificado de sinceridade. Liberdade de expressão e autorização para desumanizar são coisas distintas.

O campo da saúde mental tem muito a contribuir. O psicanalista Peter Fonagy desenvolveu o conceito de mentalização: a capacidade de compreender a si e aos outros como pessoas dotadas de pensamentos, emoções, medos, desejos e intenções. Sob ameaça e hostilidade intensas, essa capacidade pode entrar em colapso.

O outro deixa de ser uma mente complexa e vira categoria. Categorias transformam-se em rótulos, e estes podem transformar-se em alvos.

A mentalização oferece uma base fértil para práticas de mediação entre grupos antagônicos. Mediar não significa produzir concordância. Significa recuperar a possibilidade de imaginar a mente do outro sem aderir às suas ideias. Discordar preservando curiosidade. Sustentar conflitos sem convertê-los em guerra moral.

Uma das tarefas da promoção da saúde mental é transformar pertencimentos organizados contra alguém em capacitações para o convívio com alguém. Como introduzir dúvida nas certezas que autorizam a agressão? Como devolver complexidade ao rosto convertido em inimigo?

Uma humanidade sem medo, hostilidade ou agressividade só existe na fantasia. Nossa história, nossa biologia e nosso inconsciente dizem isso. A conquista civilizatória é outra: criar um intervalo entre aquilo que sentimos e aquilo que fazemos.

O processo civilizatório nunca terminou. Precisa ser reconstruído a cada geração. Civilizar o ódio é preservar esse intervalo: entre o impulso e o ato, entre o medo e o inimigo, entre a certeza e a dúvida. E devolver ao outro a condição de humano.

TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.



Fonte ==> Folha SP

Relacionados

Principais notícias

Na linha de frente da mobilização digital: Edmilson Mendes atuou pela reeleição de Lula no Pará
Jornalista denuncia perseguição e diz viver escalada de pressão após críticas ao poder público em Barcarena
De Breves à Assembleia Legislativa: a trajetória de Luiz Rebelo e os desafios do desenvolvimento do Pará

Leia mais

Mulher tem parada cardiorrespiratória após ser atingida por cabo de alta tensão em SP
Incêndio de grandes proporções atinge área de proteção ambiental em Santarém, no Pará
Notícias ao Minuto
PS5 ganha controles DualSense transparentes em três novas cores para 2027
Filho de soviéticos, Zverev cumpre profecia de Nadal e chega ao topo do ranking
Filho de soviéticos, Zverev cumpre profecia de Nadal e chega ao topo do ranking
INSS alerta segurados sobre golpe de falso concurso com inscrições inexistentes
INSS alerta segurados sobre golpe de falso concurso com inscrições inexistentes
Papa Leão 14 se reunirá com vítimas de abusos da Igreja em viagem à América do Sul
Papa Leão 14 se reunirá com vítimas de abusos da Igreja em viagem à América do Sul
Entenda em cinco pontos a ligação entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro
Entenda em cinco pontos a ligação entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro