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O que George Orwell pensaria da briga de Trump e Zelenski? – 04/03/2025 – Rui Tavares

A imagem mostra duas pessoas sentadas em um sofá no Salão Oval da Casa Branca. À esquerda, Zelenski, um homem com cabelo escuro e barba, vestindo uma camiseta preta com o símbolo da Ucrânia. À direita, Trump, um homem com cabelo loiro e terno azul, com uma gravata vermelha, está sentado com uma expressão séria. Ao fundo, há uma lareira e prateleiras decoradas com objetos dourados.

Quem leu “1984”, de George Orwell, lembra-se do ambiente de permanente vigilância e opressão, do medo e da lavagem cerebral, da novilíngua e do Grande Irmão. Mas em geral esquece a lição de geopolítica que o romance encerra.

Em “1984” há três blocos. O primeiro, dominado pelos Estados Unidos da América, é a Oceânia, e inclui todas as Américas mas também as Ilhas Britânicas. O segundo bloco é a Eurásia, dominado pela União Soviética e que vai, como o ex-presidente Dmitri Medvedev gosta tanto de dizer ainda hoje, de Lisboa a Vladivostok. O terceiro é a Lestásia, e é dominado pela China, incluindo o Extremo Oriente e parte do Sudeste Asiático.

Donald Trump não leu “1984”. Mas o mundo de que ele gosta é quase igual ao do romance. Há três potências que têm supersoberania: ele, Vladimir Putin e Xi Jinping. Os outros que se adaptem. As redes sociais, os algoritmos e a inteligência artificial tratam da hipervigilância. E a democracia dissolve-se num permanente espetáculo narcísico.

Foi em 1948 que George Orwell escreveu “1984” (o título é uma mera inversão do ano em que estava). O romance foi o seu diagnóstico de pesadelo para o mundo que antevia antes de morrer, no ano seguinte. Mas também em 1948 Orwell escreveu um ensaio político, que quase ninguém leu, no qual expunha o seu otimismo da vontade em relação à alternativa política ao mundo que temia.

Esse ensaio tinha por título “Sobre a Unidade Europeia” e desenhava a proposta de uma federação continental, com um forte viés socialista democrático, uma sociedade pluralista e de bem-estar que assegurava a sua independência por meio da integração de países médios e pequenos. A construção da unidade europeia era a forma de evitar o esmagamento do continente entre o imperialismo do Kremlin e o da Casa Branca, que acabaram por dividir a Europa a meio.

Pergunto-me como teria Orwell visto aquele vergonhoso momento de agressão verbal de Trump e seu vice, J. D. Vance, a Volodimir Zelenski, no Salão Oval, na semana passada. Por um lado, creio que não teria ficado surpreendido, ele que uma vez escreveu que “se quereis uma visão do futuro, basta imaginar a imagem de uma bota a pisar um rosto humano, para sempre”.

Ele entenderia que a brutalidade para o novo fascismo do século 21, tal como para o original do século 20, é uma parte essencial da natureza política do movimento, não apenas um subproduto.

Por outro lado, Orwell ficaria ainda mais assustado, porque o que está em cima da mesa agora não é Trump e Putin dividirem a Europa a meio, mas partilharem-na entre si. E ficaria ainda mais preocupado porque os instrumentos tecnológicos de vigilância que existem hoje são ainda mais perigosos do que aqueles que ele imaginou para o seu romance.

Perante isso, o que fazer? O episódio do Salão Oval teve ao menos a vantagem de deixar claro perante os europeus que a sua unidade não é apenas uma ideia bonita, mas uma necessidade prática.

Os desafios atuais transcendem as fronteiras da Europa. Faz sentido hoje reinventar o mundo livre, e incluir todas as democracias que ainda não soçobraram, para reformar as Nações Unidas e refazer a globalização. Para grandes males, grandes remédios.



Fonte ==> Folha SP

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