“Narrar Histórias“, publicado pela Fósforo, é a transcrição de uma conversa gravada em 1983, entre o escritor inglês e crítico de arte John Berger e Susan Sontag, para o programa “Voices”, da rede britânica de televisão Channel 4, disponível no YouTube.
“Transcrição” é uma novela de Ben Lerner, lançada no início do ano nos Estados Unidos, na qual o narrador vai entrevistar um escritor e professor da Universidade Brown, em Providence, Rhode Island, mas acaba sem poder gravar a entrevista depois de deixar o celular cair na pia do hotel. Metade do livro é a transcrição ficcional do que não pôde (não pode) ser transcrito, elogio engenhoso e irônico da ficção.
Poeta e ensaísta, Lerner escreve no rastro deixado pela tradição da modernidade que Sontag almeja para si e que hoje, apesar do relativo sucesso do autor, resiste como pode à assombração de sua suposta obsolescência moral.
A conversa entre Berger e Sontag, em um contexto completamente diferente do atual, quando ser moderno ainda era mais motivo de orgulho que de vergonha e retração, diz respeito a um embate clássico, que volta e meia ressurge. Os dois autores representam vertentes opostas (embora às vezes complementares) da compreensão da literatura.
Para Berger, que depois do romance “G.”, vencedor do Booker Prize de 1972, se engajou cada vez mais nas lutas de emancipação social e na representação do que ele chamava já àquela altura de “vozes silenciadas”, a narração é o que dá sentido ao mundo e nos protege do caos.
Tomando uma via de inspiração marxista, ele reivindica a herança das tradições orais, defendendo que as histórias circulam no mundo e que a narração apenas as resgata do silêncio, do esquecimento e da indiferença. É uma visão profundamente humanista da criação literária.
Sontag, que vê nessa ética algo de uma camisa de força, chega a provocá-lo: “Você parece mais […] um escritor soviético, narrando histórias sobre o gulag e sabendo que uma parte do público […] esteve naqueles campos e vai julgar a história pelos critérios de suas experiências pessoais”.
O preceito de identificação entre a experiência do autor e a do leitor, hoje praticamente consensual, era demasiado redutor para a autora de “Assim Vivemos Agora”, que insiste na ambiguidade do próprio ato e da ideia de narrar.
Para Sontag, narrar e escrever são e não são a mesma coisa. Há diferentes modelos de narrar, como atesta a conversa entre os dois, mas para ela não existe história antes de ser narrada. Por reivindicar a tradição literária como ruptura da tradição oral, Sontag pode dizer que “não existem histórias fora da literatura”. A literatura tem a ver com a vontade de sair de si, de romper e violar tabus.
Se por um lado a literatura está ligada a uma ideia superior de verdade e de revelação, por outro ela depende (e está consciente) da imaginação e da invenção para alcançá-la. O escritor transforma. É aí que surge o lugar e o sentido complexo da forma.
Nabokov dizia que a literatura nasceu quando um menino voltou para casa, correndo e gritando “Lobo! Lobo!”, mas não havia nenhum lobo atrás dele. A diferença está na representação do que não aconteceu, do que não existe e do que não se vê, do impossível, do inconcebível. É um passo de liberdade extraordinário para além do relato e do testemunho, muitas vezes moralmente incontestáveis. É desse entendimento que fala e depende a “transcrição” da novela de Ben Lerner.
Para Berger, o que transforma fato em ficção é sua universalidade, sua qualidade mítica. Ele narra “contra o absurdo. Contra aquele infinito espaço aterrorizante em que vivemos”.
Sontag, ao contrário, reivindica uma ruptura radical com relação à tradição que atribui à narração a função de abrigo contra o absurdo do mundo. Para ela, ao se libertar do relato dos fatos, o narrador “amplia o campo da nossa imaginação e nos apresenta ao absurdo”. Conceber o absurdo é a medida da nossa liberdade.
Fonte ==> Folha SP