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Todo mundo deveria ser religioso? – 01/03/2025 – Hélio Schwartsman

A imagem mostra um homem de costas, com as mãos na cabeça, em uma posição de reflexão ou preocupação. À esquerda, há uma mão robótica, e à direita, uma mão humana, ambas se aproximando do homem. O fundo é de uma cor azul sólida.

Há poucos livros de que eu discorde mais do que de “Believe” (creia), de Ross Douthat, o colunista religioso e conservador do The New York Times. Ao contrário do autor, eu não acho que Deus exista. Tampouco penso que todos deveriam ser religiosos, como reza o subtítulo da obra.

Ainda assim, foi instrutivo e prazeroso ler “Believe”. Quem deseja crescer intelectualmente deve expor-se às ideias que rejeita, não fugir delas.

Em dois quesitos eu e o autor estamos de acordo. 1) É impossível provar para além de qualquer dúvida tanto que Deus existe como que inexiste. 2) Crer ou não é uma escolha binária. Até podemos nos furtar a ela no plano intelectual, proclamando-nos agnósticos, mas não no comportamental. Ou agimos como se existisse um Criador de cujas boas graças precisamos para obter a vida eterna, ou como se não existisse.

E o ponto de Douthat, que tem algo de pascaliano, é que é melhor agir como se essa entidade existisse. Eu até fecharia com o autor, se ele limitasse suas conclusões ao reino do instrumental. Pesquisas mostram que quem segue uma religião e mantém vínculos sociais fortes é mais feliz e saudável do que quem não faz isso.

Douthat, porém, é mais ambicioso. Ele quer que as pessoas acreditem porque considera ser mais provável existir do que não existir um Deus que intervém miraculosamente no mundo. E aí eu penso que seus argumentos se tornam epistemologicamente simplórios. Por que Deus só operaria milagres médicos (que ele diz serem abundantes) em patologias como câncer, em que remissões espontâneas são relativamente comuns? Por que Ele não executa milagres indiscutíveis, como fazer brotar novos membros em amputados?

O paradigma materialista no qual se ampara a ciência moderna já fez o pequeno milagre de fornecer explicações racionais para muito do que até alguns séculos atrás era inexplicável sem invocar o sobrenatural. Não vejo motivos para abandonar esse paradigma tão exitoso só porque há coisas que ainda não entendemos e talvez nunca entenderemos.



Fonte ==> Folha SP

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