A universidade pública brasileira chegou a uma encruzilhada. Ou reafirma com clareza os princípios que justificam seu prestígio, sua autonomia e o investimento público que recebe ou continuará perdendo legitimidade diante de uma sociedade que já começa a vê-la como uma frente da guerra cultural.
A universidade existe nã para disputar poder, ensinar doutrinas ou mobilizar identidades, causas e paixões, mas para submeter ideias e evidências ao teste público da razão, do método e da crítica. Defendê-la é recusar a condescendência diante de práticas que a impedem de ser, como queria Darcy Ribeiro, autônoma em todos os sentidos: livre de tutela política, imune à instrumentalização ideológica, resguardada do clientelismo e da mediocridade.
Foi para defender essa missão que um grupo de professores e pesquisadores lançou recentemente o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. O documento nasce de uma constatação incômoda: há hoje, nas universidades públicas, um ambiente crescente de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso.
O paradoxo da liberdade acadêmica no Brasil está na indignação seletiva. Quando governos como o de Bolsonaro tentaram interferir na universidade, desrespeitando procedimentos de nomeação de reitores, vigiando aulas, ameaçando professores ou usando o orçamento como coação, a reação foi imediata —e correta. Invocamos autonomia universitária, pluralismo, liberdade de cátedra e resistência ao autoritarismo.
Mas a mesma régua desaparece quando a agressão vem de dentro do campus, em nome de causas progressistas. Nesse caso, domina a autocomplacência: a interdição do dissenso vira proteção de grupos vulneráveis; o veto a palestrantes, defesa de “espaços seguros”; a intimidação de docentes, punição moral justificada.
Disso resulta uma universidade invertida: em vez de se afirmar como o espaço por excelência da liberdade de pensar, experimentar e discordar, converte-se no lugar onde as pessoas devem ser protegidas de ideias que as contrariem. Em vez de formar estudantes capazes de enfrentar argumentos difíceis com razões e evidências, passa a treinar militantes que mandam calar, denunciam, punem e expulsam, como se a universidade fosse deles, não um bem coletivo. A liberdade que deveria valer para todos torna-se condicional: absoluta quando protege quem pensa de um jeito; revogável quando ampara o outro lado.
Discursos discriminatórios e assédio existem e devem ser objeto do devido processo. Mas isso é muito diferente de tratar diferenças sobre políticas públicas, economia, segurança, relações internacionais, gênero, raça, religião ou costumes como delitos morais.
Trata-se de autoritarismo e de intolerância. O autoritarismo aparece sempre que um grupo considera seus valores tão superiores que se sente autorizado a punir o dissenso, interditar adversários e subordinar a liberdade a uma causa redentora. A intolerância política, por sua vez, nem sempre se apresenta como ódio explícito a um grupo; muitas vezes surge como recusa a certos atos —falar, convidar, ensinar, discordar— quando praticados por quem está fora da ortodoxia dominante.
A universidade precisa encontrar saídas. Neutralidade institucional não significa indiferença moral, covardia intelectual ou abstenção pública diante de ameaças à universidade ou à democracia. Significa que a instituição deve garantir que todos os lados legítimos numa democracia —progressistas, conservadores, liberais ou outros— tenham o mesmo direito de existir e debater no espaço público acadêmico.
Pluralismo não significa que todas as ideias valem o mesmo, mas que ideias devem ser testadas por argumentos, dados e crítica qualificada, não por gritos, vetos, intimidação ou superioridade moral autoproclamada. A universidade existe não para poupar adultos do atrito intelectual nem para fazer curadoria ideológica, mas para ensinar que conviver com a discordância é parte da vida democrática e da honestidade científica.
É do próprio Darcy, de cujas credenciais progressistas ninguém há de duvidar, a frase que sintetiza o espírito que deveria reger a vida acadêmica nacional: “Nesta universidade ninguém, professor ou aluno, será punido ou premiado, jamais, por sua ideologia”. A universidade precisa, então, escolher entre ser capturada pela lógica das trincheiras ideológicas, como mais um território da guerra cultural, ou recuperar sua vocação mais nobre como instituição aberta, onde a luz da razão tem alguma chance contra as paixões sectárias do tempo.
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Fonte ==> Folha SP