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Piada não é opinião; risada não é aprovação – 11/06/2025 – Claudio Manoel

Um homem está segurando um pedaço de fita preta perto da boca, enquanto olha para a câmera. Ele usa uma camisa vermelha com estampas de risadas e símbolos. O fundo é branco, destacando a figura do homem.

Ele ultrapassa qualquer limite. Ele exagera, extrapola, abusa, debocha e não cansa de produzir disparates e absurdos. Ele não tem nenhum pudor em fazer o que lhe der na telha, zombando de quem o critica ou desaprova e, volta e meia, se coloca acima das leis.

Certamente você já adivinhou que estou me referindo ao humorista condenado à prisão (provando que o atraso mental e o furor censório também ainda estão aqui), Leo Lins. Ou não? Afinal, o que está escrito acima serve também para descrever direitinho boa parte do dia a dia do “nosso” Judiciário.

Não estou dizendo que os dois (o comediante e a Justiça) sejam, exatamente, iguais. As diferenças são inúmeras e imensas.

Um tem privilégios aristocráticos, penduricalhos, mordomias e excelentíssimas aposentadorias, abusa do nepotismo, carrega inúmeras suspeitas e denúncias, é caríssimo, ineficiente, perdulário, elitista e sustentado pelos impostos pagos de quem suou e penou para os pagar.

O outro é um humorista que lota seus shows, vende muitos milhares de livros e vive de quem, voluntariamente, o consome.

Ah! Mas as piadas dele são de péssimo gosto, repugnantes e até mesmo criminosas. Isso tudo pode ser certeza para muita gente, mas para outras tantas que são fãs, ou não se incomodam, não levam piadas tão a sério ou, pelo menos, não acham que elas devam ser criminalizadas, a coisa não é tão certa assim.

Para mim, piada não é opinião. Você pode não concordar, não estou atrás de aprovação. Assim como, segundo meu ponto de vista, quem ri de uma piada não é cúmplice dela. De novo, não estou proferindo um mandamento sagrado, só expressando o que penso.

O que importa é que mesmo que muitos não distingam, ou não aceitem que um conteúdo humorístico seja apenas artístico e não opinativo, não deveriam existir “crimes de opinião”, que levam, obrigatoriamente, a “presos por opinião”, ao cerceamento da sátira, da crítica, da provocação e do dissenso.

A última vez que humoristas foram presos no Brasil (mas não foram nem julgados, muito menos condenados) também o foram em nome de nobres valores e ilibadas intenções.

Ou seja, esse é o tipo de coisa que deveria ter ficado no passado e nunca sair das catacumbas para assolar o presente e fazer temer o futuro.

Muito se discute sobre o “limite do humor“, mas acho mais importante e urgente se discutir o “limite da ofensa”. Como disse o comediante inglês Rick Gervais; “Não é por você se sentir ofendido que você tem razão”, mas ainda é mais que isso. Ofensa é coisa pessoal, cada um pode escolher as suas.

Tem quem fique indignado com piadas escrotas, tem quem ache muito mais ofensivo desembargador ganhar R$ 600 mil. Quem é mais danoso para a sociedade? Quem contribui mais para a perpetuação de mazelas como a desigualdade e as regalias absurdas e bilionárias?

Outro detalhe: é para levar a sério mesmo essa conversa que “piadas matam”? No país do homicídio?! Com algumas dezenas de milhares mortos na bala e na faca e outros tantos no trânsito? Onde um mosquito pode te matar de meia dúzia de doenças diferentes e as diversas insalubridades ceifam milhões de vidas? Isso não pode ser considerado uma piada crudelíssima?

Já citei Millôr aqui, numa coluna anterior, mas nunca é demais relembrar: “Não quero viver num país onde não se possa fazer uma piada de mau gosto.”

A “tirania dos sensíveis” não vai tornar o mundo melhor. Ele vai ficar apenas mais… tirânico.



Fonte ==> Folha SP

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