Aprender é se relacionar. Nas periferias, as aprendizagens correm pelos becos, vielas, rodas de samba, terreiros e hortas comunitárias. Para além do confinamento escolar, aprender é movimento, afeto e ancestralidade.
É desse chão que eu chego, mulher periférica, educadora socioambiental, filha do êxodo rural nordestino. Trago as belezas e as feridas do meu lugar e a escuta do que pulsa nas redes de vida da quebrada, uma natureza que insiste em brotar nas frestas do concreto.
Na infância, aprendi no sertão do Ceará que a terra sustenta a vida. De volta à periferia de São Paulo, buscava essa mesma vida no mundo cimentado.
A escola pública também era concretada, mas minhas professoras abriam frestas e nos conduziam a encontros com resquícios de floresta ainda vivos no território. Chegar aqui é travessia, minha voz emerge da margem, pesquiso desde o porão.
Vivemos, afinal, no mesmo navio-mundo, mas não nos mesmos lugares. Há quem esteja no convés. E há quem sobreviva no porão, onde a água chega primeiro. Na cidade, esse porão se reinscreve nas periferias.
Somos nós que sustentamos o peso, movemos os remos e sentimos a borda ceder. É daqui que se reinventam rotas e se aprende, por enfrentamento e invenção, a não afundar.
A vida depende de fluxo, princípio ecológico que sustenta ciclos, trocas e a continuidade da vida. Quando interrompido, o sistema adoece. Nas periferias, essa ruptura tem nome: desigualdade, racismo ambiental e uma cidade que bloqueia o acesso à natureza, ao descanso e ao encontro, criando zonas de contenção da vida.
Quando a vida é contida, a aprendizagem também é. Interrompem-se fluxos de memória, sentido e criação. Nas tradições afro-brasileiras, essa força vital em movimento tem nome, axé. Ele não se acumula, mas circula e vive.
É nesse contexto que a educação ambiental pode contribuir para restaurar os fluxos da vida. Às vezes, isso aparece em gestos pequenos e profundamente transformadores.
Em uma escola pública na zona leste da cidade de São Paulo, no contexto do trabalho de educação ambiental da ONG Formigas-de-Embaúba, durante uma vivência sobre a importância do solo, apresentamos a terra preta como a mais fértil.
As meninas negras começaram a se olhar até que disseram com orgulho: “A terra preta é a melhor! É ela que faz tudo nascer!”. Ali, não era só a terra que estava sendo reconhecida, algo nelas se reativava.
Aqui, mais do que conteúdo, está em jogo que crianças e jovens periferizados reconheçam e reativem sabênças historicamente negadas. Aprender é um gesto emancipatório de retomada de si, da memória e do território.
Restaurar o fluxo da vida por meio da educação, especialmente onde foi interrompido. É mais que uma escolha política, é uma necessidade urgente. Isso exige que a dimensão étnico-racial da educação ambiental deixe de ser complementar e passe a estruturar as políticas públicas.
Mesmo diante da ausência ou fragilidade dessas políticas, a periferia insiste e resiste nas práticas de educadores, nos movimentos populares e nas iniciativas dos territórios, muitas vezes contra a corrente.
Mas o que hoje resiste não pode seguir dependendo apenas de esforço e exceção. Diante da emergência climática, é preciso fazer da margem o centro e garantir que essas práticas ganhem escala, estrutura e continuidade.
Do porão, onde a vida é mais ameaçada e também reinventada, emergem respostas para sustentar o presente e criar futuros. A margem é o centro.
Fonte ==> Folha SP