[RESUMO] Em tempos de contundentes argumentos sobre a decadência da TV aberta, uma novela singela das 18h na Globo abre novas fronteiras para o poder narrativo do veículo. Com história de tom fabular sobre as relações de um reino na África e uma pequena cidade nordestina brasileira, “A Nobreza do Amor” oferece novos modelos de representação e imaginário com seu mergulho na cultura negra, provando que a conexão com demandas do público não se resume apenas a aparatos tecnológicos.
Em tempos nos quais a inteligência artificial generativa parece desembainhar a espada de Dâmocles sobre o pescoço dos processos criativos articulados pela linguagem humana, como pensar as narrativas ficcionais? Num momento em que se enfileiram argumentos que decretam o fim do modelo de transmissão de conteúdo e concebem a TV 3.0 como a boia de salvação para a permanência do gesto de tele-ver, quais os prognósticos que emolduram a tela de um aparelho que nos acompanha desde a década de 1950?
A estas indagações, engato outras menos grandiloquentes: o que ainda podem a televisão e as telenovelas? E mais especificamente: quais os pratos que “A Nobreza do Amor”, folhetim da faixa das 18h, faz girar de tal modo que pelas lentes do microscópio (uma novela singela que conectou o Brasil à África) consegue ampliar a visão coletiva e nos oferecer o telescópio (reposicionamento do papel da televisão, reativando, assim, a promessa perpétua de conjugar performatividade técnica com expressividade humana, numa ambiência em que o novo rebento da TV digital, a TV 3.0, está à espreita)?
Neste 13 de maio, em que se reatualizam os sonhos por liberdade e emancipação, e no contexto em que a PEC da Reparação ganha maior tração no tecido social, pode-se afirmar que “A Nobreza do Amor” instaura um gesto de restituição, oferece a pedra de toque para se auferir o valor das narrativas ficcionais comprometidas com o espírito do tempo, que no caso da história negra se materializa no tempo espiralar.
O que cabe à TV é ser TV
Munida do microscópio e do telescópio, paralelo estabelecido por Gabriel García Márquez, faço um breve exame de uma novela que se aloja no coração das perguntas acima referidas e destaco que, além das questões que se incrustam na ponta do iceberg (o laço indissolúvel entre imaginários, representação e visibilidade, mobilizados para reposicionar histórias e personagens até bem pouco tempo à margem da teledramaturgia, o que não é pouca coisa), “A Nobreza do Amor”, escrita por Duca Rachid, Elisio Lopes e Julio Fischer, oferta uma narrativa que está à altura do nosso tempo.
As micro-histórias que se entrecruzam desenham uma trajetória que pode se constituir como matriz na conta longa, para usar expressão dos maias, no território da produção de imaginários —pelo que se vê nos últimos anos, tarefa para a qual a TV Globo vem dispensando esforços que se interseccionam. As novelas “Lado a Lado” (2012), “Amor Perfeito” (2023) e “Garota do Momento” (2025), todas da faixa das 18h, são exemplos que se podem destacar das iniciativas positivas.
Do lugar de consumidora e pesquisadora de televisão/telenovelas, observo o atual folhetim das 18h e, ao descer as camadas da ponta do iceberg do reino de Batanga, na África, e de Barro Preto, no Rio Grande do Norte, vemos os pratos girarem em torno do suporte que lhe dá fundamento e plasticidade.
Ao renovar o painel da ficção, “A Nobreza do Amor” prolonga o papel da TV em sua dimensão narrativa: oferece o novo, que exala o cheiro do orvalho primaveril, mantendo a estrutura invariante do folhetim.
Machado de Assis costumava dizer que a história é uma dama elegante cheia de caprichos, constatação que pode ser transplantada para a TV, uma senhora dama com 76 anos de Brasil e 100 de mundo que não para de clamar incessantemente por inovação. “Imaginávamos estar em porto seguro e novamente somos lançados ao mar”! —a frase de Leibniz, decididamente, parece ser o mantra dos gestores do audiovisual.
A trajetória robusta, centenária, da TV no mundo nos leva a nuançar as perspectivas catastróficas e fatalistas. Para os espíritos apressados, é preciso insistir que as mudanças tecnológicas expressam sobretudo reajustes e reorientações para que a expressividade humana encontre lugar no aparato da performatividade instrumental, e menos uma ameaça existencial.
É preciso insistir: quando o que está em jogo é a produção de narrativas ficcionais, somos testemunhas do quanto esses reajustes expandem a plataforma das narrativas na qual apostamos quase todas as nossas fichas (as novelas verticais são a quintessência desses reajustes).
Tal como a aposta de Blaise Pascal num Deus de existência incerta e demonstração improvável, apostamos no final feliz, apostamos nos casais amorosos, apostamos na vitória do bem sobre o mal, apostamos no amórdio (amor e ódio) destinado aos/às bons/boas vilãos/ãs… sempre apostamos e sempre retornamos ao hábito rotineiro, quase litúrgico, de assistir aos folhetins eletrônicos.
Telenovelas são construções imaginárias que vão sendo tecidas ad infinitum numa cadeia aparentemente ininterrupta em que tentamos satisfazer nossas demandas e desejos. Já que as narrativas que se referem ao real são sempre deficitárias, incompletas, posto que falam do inatingível, de uma parte inacessível que todos nós carregamos, o esforço contínuo é tentar acessar esse inacessível.
A ficção tem o papel de superar essa dificuldade, nos tele-transportando para um mundo de fantasias em que o inacessível se torna acessível, em que o inatingível se torna próximo, em que o estranho se torna familiar, apaziguando os dilemas que nos atravessam perenemente.
Este é mais um dos pratos que a novela da faixa das 18h faz girar: a demanda por um Brasil plural que reconhece suas matrizes civilizatórias, com protagonismo do continente africano, que encontra abrigo no desejo autoral para que a ficção expanda o horizonte dos possíveis, amplificando os imaginários que emancipam.
Demanda do público e desejo autoral se juntam, como os elementos de uma equação, ao propósito da casa em se manter relevante sem abrir mão do que é inegociável: atualização tecnológica que caminha junto com produção de narrativas que nos conectam com o inacessível que carregamos.
Contrato, pacto e promessa
Ao recolocar demandas e reatualizar desejos, “A Nobreza do Amor” se configura como uma obra inaugural porque traz um tema inovador: as relações entre Brasil-África que nos legaram um laço indissolúvel que formou o país. O continente africano deu um povo para o país, como costumava dizer a pensadora negra e feminista Lélia Gonzalez, e, com ele, toda uma bagagem civilizatória.
Já que a televisão se tornou a máquina de fabulação mais expressiva inventada até o momento, “A Nobreza do Amor” parece confirmar o seu papel de, a cada dia, oferecer o novo que sempre retorna (a continuidade do “novellus” discursivo espelha bem essa situação).
A tensão entre o novo e o velho, o conhecido e o desconhecido é uma questão nevrálgica na TV. É preciso inovar sem, com isso, quebrar o pacto com a audiência, cumprir a promessa dentro de um contrato estabelecido. O contrato é fundamental para que o público deponha seu olhar nas fatias da telenovela que são servidas diariamente.
Laço social, a cena do visível e do invisível
Como se cumprem as três promessas anunciadas na aurora da televisão: informar, entreter e educar? De que maneira pensar em contrato, promessa e pacto para a promoção do laço social?
“A Nobreza do Amor” vem estabelecendo um pacto no qual a sustentação do tripé acima mencionado se dá sobre bases éticas e estéticas que produzem novos repositórios de imagem e constroem a memória de um país, Brasil, e de um continente, África, invisibilizados em grande medida pelos arquivos oficiais naquilo em que se testemunha o protagonismo das pessoas negras no teatro da vida.
As pontas deste laço são ligadas por uma ambiência na qual as cosmologias afrobrasileiras compõem um cenário a partir do qual formas de existência plurais são validadas. Na cena do primeiro capítulo, na qual é feita a consulta ao Oráculo, o jogo de Ifá aparece como trilha orientadora para compreender o destino.
Trata-se de uma cena bem tramada, orientada por uma inteligência estratégica porque o que importa não é a transparência do jogo como ele é, mas uma oportunidade de se conhecer um saber ancestral, sem desfigurá-lo.
Esse primado é a pedra fundamental das cosmologias africanas e indígenas. Makota Valdina, uma grande sacerdotisa, educadora e ativista, costumava dizer que a dimensão do segredo e do mistério das religiões de matriz africana deve ser preservada quando transportada para a arte e a ficção. É preciso que a opacidade, o desvio, o “erro aparente” (que não é erro, é estratégia) preservem o que não pode cair nas malhas da visibilidade total.
Manoelzinho Salustiano, diretor da Associação de Maracatus de Baque Solto, diz que o símbolo de maior mistério é o cravo que o caboclo de lança leva na boca: “é segredo, não pode ser revelado; só é revelado a quem tem o pertencimento”.
O cacique Babau, uma referência fundamental dos povos tupinambá, costuma defender que os rituais de sua etnia são sempre preservados —e quando estetizam algumas práticas, estas são sempre desviantes e dinamizadas pelos rituais de outras etnias.
Pelo que se viu, “A Nobreza do Amor” foi ninja nessa operação porque soube mostrar ocultando o jogo, num desvio que uma leitura apressada registra como erro ou falta.
“A Nobreza do Amor” é nobre sobre vários aspectos e, do alto da sua nobreza, demonstra o quanto a telenovela pode ganhar ainda mais espaço, coexistindo com as inovações da TV 3.0, na contracorrente de uma certa crítica que analisa os suportes de comunicação amparada pela lógica da substituição (não nos esqueçamos de que o único suporte de comunicação substituído foi o papiro, que deu lugar ao papel).
A televisão ainda tem muito a nos contar, a fabulação crítica ainda precisa projetar histórias como a do Reino de Batanga e de Barro Preto: a um só tempo leve, singela, política, pedagógica e emancipada. Sem sombra de dúvidas, os autores não amarelaram!
PS: antes que o leitor possa eventualmente associar o amarelar aos povos asiáticos, um “disclaimer”: peço licença para dizer que o termo aqui não se conecta com o estereótipo negativo, mas se abre às avenidas de significação que o termo comporta, histórica e culturalmente consolidadas. Chequei, procurei fontes, “prestei atenção” e posso assegurar que neste caso o uso da linguagem segue o leito da polissemia, livre das amarras de âncoras preconceituosas e discriminatórias.
Fonte ==> Folha SP