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Persas estão em guerra desde antes de Alexandre, o Grande – 13/05/2026 – Marcelo Rubens Paiva

Figura mitológica com corpo de leão, asas coloridas e cabeça humana com touca, segurando uma bandeira dos EUA rasgada diante de um porta-aviões em fundo amarelo.

Trump, em maus lençóis, com a popularidade em baixa, apontou sua ira contra o Irã. Resultado: os EUA já torraram US$ 39 bilhões (sem contar a reforma das instalações destruídas) e sua inflação é a maior desde a pandemia.

Propaganda, deturpação e mentira exaltam o patriotismo. A massa vê seus rostos nos grandes desfiles, comícios, espetáculos esportivos e nas guerras, escreveu Walter Benjamin. Ela se junta como um cardume ou um coreografado voo de pássaros para iludir o predador.

No nazismo, grandes comícios em linhas retas, suásticas, estandartes, gestos, arquitetura e os uniformes produzidos pela empresa Hugo Boss eram parte do projeto de unir o dividido.

“Fiat ars, pereat mundus” era o lema dos fascistas (faça-se arte, ainda que o mundo pereça). Para isso, inventa-se um inimigo, o satã, o pagão, o Império do Mal, o “bad guy”.

Adiantou matar a cúpula do governo iraniano, incluindo o aiatolá Khamenei? Trump falou coisas como “farei voltarem à Idade da Pedra”. Até seu partido se pergunta como sair desse atoleiro.

O governo iraniano é uma ditadura impiedosa que interfere na geopolítica, financiando grupos terroristas, e nos costumes individuais. Além da Guarda Revolucionária, a polícia moral Gasht-e Ershad fiscaliza, pune com chibatas e prende quem não está de acordo com o padrão.

Em 1953, o país vivia sob uma experiência democrática até o primeiro-ministro, Mohammad Mosadeghh, nacionalizar a indústria do petróleo, controlada pelos ingleses. O golpe de Estado tramado pela CIA e pelo MI-6 destronou Mosadeghh e empoderou o xá Reza Pahlavi, que vivia num confortável exílio na Suíça.

Pahlavi foi derrubado por uma revolução que juntava esquerda, movimento estudantil, liberais e o clero xiita. No vácuo do poder, assumiu o aiatolá Khomeini, que articulava a oposição no exílio em Paris.

As mulheres e a cultura ocidental foram as principais vítimas. E o que desencadeou a ascensão desse regime foram as trapalhadas dos próprios Estados Unidos, numa aliança no passado com o Reino Unido e no presente com Israel.

A Casa Branca elegeu primeiro os iraquianos e agora os iranianos como inimigos. Para isso, induzem a uma xenofobia banhada na ignorância. Não, eles não são um agrupamento de beduínos e nômades que circulam por desertos em camelos e dormem em tendas.

Na Mesopotâmia, tudo começou. São de lá as primeiras cidades. Na Babilônia editou-se a Bíblia, pois religiosos não eram perseguidos —Nabucodonosor 2° levou o povo do Reino de Judá para colocar em papiros textos do Antigo Testamento, a começar pelo “Gênesis”.

A sabedoria iraniana é milenar. O matemático Al-Khwarizmi (780-850) sistematizou a álgebra e equações de primeiro e segundo grau e popularizou os números que usamos até hoje, “aposentando” os números romanos.

O filósofo Al-Farabi (872-950) difundiu e integrou ao islã o pensamento grego, de Aristóteles, Sócrates a Platão, filósofos proibidos na Alta Idade Média. Graças aos persas, a filosofia grega foi preservada.

O iraniano Ibn Sina (980-1037) escreveu o livro de medicina referência por séculos, “O Cânone”, e fez a distinção entre essência (o que algo é) e existência (o fato de algo existir), enquanto a Igreja Católica limitava a dissecação de cadáveres.

Al-Zahrawi (936-1013), islâmico, inventou instrumentos cirúrgicos e descreveu técnicas detalhadas. Escreveu uma enciclopédia médica de 30 volumes, “Kitab al-Tasrif”. Antes da Renascença, operar era profanar os mortos.

Ibn al-Haytham (965–1040) foi um dos maiores cientistas da Idade Média e um pioneiro da ótica. Pesquisou a luz e a câmera escura. Defendia que ciência deve ser baseada em observação e experimento, não em livros sagrados.

Al-Biruni (973–1050) calculou o raio da Terra precisamente, enquanto o papado defendia o geocentrismo. Al-Razi (854–925) diferenciou a varíola do sarampo. Omar Khayyam (1048–1131) desvendou equações cúbicas, levando a matemática para outra dimensão.

O drone iraniano Shahed-136, com alcance de 2.400 quilômetros, destrói radares de US$ 1 bilhão e pode afundar navios. Custa US$ 35 mil. Coreografa como pássaros, engana a defesa inimiga. Contra ele, Israel e EUA usam os Patriots, US$ 4 milhões cada um.

Lanchas com mísseis são capazes de fechar o estreito de Hormuz e afetar a economia mundial. Como cardumes, iludem. O maior porta-aviões do mundo, USS Gerald S. Ford, que custou US$ 13 bilhões, acaba de se retirar de fininho do teatro da guerra, com danos estruturais.

Os persas estão em guerra desde antes de Alexandre, o Grande. O mundo islâmico medieval foi responsável pelo avanço da ciência e pela preservação da herança grega. Agora, a sabedoria iraniana e os embargos econômicos (e de armas) revolucionam o “fazer guerra”.



Fonte ==> Folha SP

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