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Carnaval: a festa que nunca termina, apenas repousa

Myrinha Vasconcellos sorrindo com plumas amarelas em frente a painel azul decorado com letras coloridas formando a palavra “Carnaval”.
Myrinha Vasconcellos celebra o espírito do Carnaval — alegria, memória e tradição que atravessam gerações.

Quatro dias de folia que se transformam em eternidade na alma de quem vive o samba e o frevo.

O Carnaval é o instante em que a vida nos entrega uma chave mágica: trancamos os problemas em um cofre invisível e, por quatro dias, abrimos as portas da alma para a alegria. É como se o tempo se transformasse em música, e cada coração pulsasse no compasso de um tamborim.

Recordo-me de sobrevoar Recife em um sábado de Carnaval. Lá embaixo, o Galo da Madrugada já esticava suas asas para acordar a cidade inteira. Do alto, eu rezava para que o avião pousasse logo, pois a ansiedade de cair no frevo era maior que qualquer turbulência. E assim, entre ladeiras de Olinda e ruas estreitas apinhadas de foliões, vivi dias em que até perder a sandália se tornou poesia. Margarida, grande amiga, dona de singular alegria e estatura privilegiada, enxergava além da multidão: seu olhar alcançava o oceano humano que “frevava” à nossa frente, e juntos éramos parte de uma correnteza de cores e risos.

Na quarta-feira, ainda houve tempo para o Bacalhau do Batata, temperado com promessas que nunca se cumpriram, mas que ficaram guardadas como relíquias de amizade.

Mais tarde, no Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa me ensinou outra face da festa. Desfilar na Sapucaí é atravessar um portal: o corpo dança, mas é a alma que se expande. Foram 31 anos de ensaios e desfiles, de sambas que nasciam em botequins modestos e se transformavam em hinos capazes de mover multidões. Vi compositores ditarem versos como quem sopra segredos ao vento, e músicos que, sem conhecer a escrita da música, traduziam o coração em acordes, no cavaquinho e no ritmo do pandeiro.

O Carnaval é feito de saudade e promessa, de máscaras que revelam mais do que escondem, de multidões que se tornam uma só voz. É o cofre que abrimos em fevereiro para liberar a alegria acumulada, e que fechamos na quarta-feira apenas para guardar o brilho até o próximo ano.

O Carnaval não termina, ele repousa, como a Águia Azul e Branca da Portela, altiva e majestosa, que aguarda o momento certo de abrir suas asas e voltar a voar sobre a avenida, encantando corações.

Até 2027 !

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