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como o agro freou o impacto da crise do petróleo

como o agro freou o impacto da crise do petróleo

Ao longo de cinco décadas, o Brasil construiu uma cadeia de produção e distribuição de biocombustíveis que hoje funciona como barreira contra choques de preço e oferta de petróleo, como os provocados pelo fechamento do Estreito de Ormuz no início do ano.

Pioneiro na adoção do etanol em larga escala e dono da maior frota de veículos flex do mundo, com 80% dos carros leves equipados com a tecnologia, o Brasil sofre menos os efeitos da crise gerada pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã.

Desde o início dos ataques, em 28 de fevereiro, o preço do barril Brent disparou até 73,8%, saindo de US$ 72,48 para US$ 126. Apesar do recuo para a faixa dos US$ 100, o valor segue estruturalmente elevado, cerca de 38% acima da cotação do início do ano.

Nos Estados Unidos, os efeitos foram imediatos. A inflação ao consumidor em 12 meses subiu para 3,3% em março, impulsionada pela alta de 10,9% nos custos de energia.

Pela primeira vez desde agosto de 2022, o preço médio da gasolina nos postos americanos ultrapassou US$ 4 por galão, chegando a US$ 4,30 no fim de abril, alta acumulada de 44%. O diesel subiu até 51% em algumas regiões.

O movimento levou o Federal Reserve a interromper a trajetória de queda dos juros, colocando o país em cenário de estagflação: o petróleo pressiona a inflação e reduz a renda disponível das famílias, esfriando a atividade econômica.

Nos EUA, a maior parte da gasolina vendida é E10, com 10% de etanol. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) proíbe o E15 no verão para limitar a formação de névoa poluente devido à maior volatilidade do combustível no calor.

No cenário atual, porém, o governo americano passou a permitir emergencialmente a venda nacional do E15 a partir deste mês para reduzir o preço nas bombas em até US$ 0,30 por galão.

Na Europa, a vulnerabilidade é ainda maior devido à dependência histórica de importações de energia. Na Zona do Euro, a inflação anual subiu para 3% em abril, refletindo alta de 10,9% no grupo de energia.

O diesel teve elevação média de 30% no bloco. Em países como Suécia e República Tcheca, o combustível subiu 27,6% apenas em março.

O Banco Central Europeu (BCE) revisou a projeção de inflação de 2,1% para 2,6%, enquanto a expectativa de crescimento do PIB caiu para 1%.

Em meio à crise, a Comissão Europeia (CE) avalia elevar a mistura de etanol na gasolina dos atuais 10% para 20%, segundo carta da presidente do órgão, Ursula von der Leyen, enviada a três eurodeputados alemães no fim de abril.

Brasil é líder mundial na substituição de gasolina por etanol

O Brasil consolida-se como líder na substituição de combustível fóssil por equivalente vegetal. Com a adoção da mistura de 30% de etanol anidro na gasolina (E30) no início do ano, tornou-se o único país do mundo a adotar esse patamar em escala nacional.

Embora os combustíveis ainda tenham pressionado a inflação brasileira no primeiro trimestre, o impacto seria muito maior sem a adoção maciça de biocombustíveis, que a britânica The Economist chama de “arma secreta”.

Segundo o IBGE, após o início dos conflitos no Oriente Médio, o diesel subiu 13,9% em março. A gasolina avançou 4,59%, enquanto o etanol teve alta de 0,93%.

De acordo com o Ministério de Minas e Energia, o aumento da mistura de etanol na gasolina de 27% para 30% elevou em 1,5 bilhão de litros a demanda anual do biocombustível, reduzindo na mesma proporção a necessidade do derivado de petróleo. O etanol anidro tem rendimento equivalente ao da gasolina pura, diferentemente do hidratado, que rende cerca de 70%.

O governo calcula que ampliar a mistura para 32% permitirá ao Brasil deixar de importar mais 454 milhões de litros de gasolina por ano, colocando o país em condição de autossuficiência.

A mudança foi anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no fim de abril, mas ainda depende de decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), cuja reunião prevista para quinta-feira (7) ainda não teve nova data definida.

A União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) estima impacto ainda maior, com aumento anual de cerca de 1 bilhão de litros na demanda por etanol anidro com a adoção do E32.

“A ampliação da mistura é um caminho que o Brasil já conhece e sabe operar”, afirma Evandro Gussi, presidente da entidade. “O etanol permite avançar com segurança energética a partir de uma solução disponível, produzida no país e em larga escala.”

No diesel, a elevação da mistura obrigatória de 15% para 16% (B16), também anunciada por Lula, substituiria de 700 milhões a 800 milhões de litros de combustível fóssil por ano.

Entidades do setor produtivo e a Frente Parlamentar do Biodiesel (FPBio) defendem que a proporção seja ampliada ainda mais, para 17% (B17).

“Hoje o Brasil ainda importa cerca de 30% do diesel que consome. Em um cenário de instabilidade internacional, isso representa uma vulnerabilidade para a nossa economia. O agro tem capacidade de oferecer parte dessa solução, transformando biomassa em combustível e fortalecendo nossa segurança energética”, disse o deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), após o início da escalada da tensão no Oriente Médio.

Produção de biodiesel gera emprego e evita perda de óleo de soja

Além de reduzir a demanda por combustíveis fósseis, a produção de biodiesel ajuda a resolver outro problema do campo.

Cerca de 80% da soja processada vira farelo e 20%, óleo. Sem um mercado robusto para esse óleo, existe um limite estrutural para o crescimento da cadeia. O biodiesel surge como peça-chave ao absorver o excedente, viabilizando mais esmagamento, gerando mais farelo e alimentando a cadeia de proteína animal.

Com a ampliação gradual da mistura obrigatória, o esmagamento segue em expansão desde 2023. A consultoria Safras & Mercado prevê que, em 2026, sejam processadas 61,8 milhões de toneladas do grão, alta de 6% sobre o ano passado.

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) estima que cada ponto percentual na mistura aumenta em 3,59% os empregos da cadeia produtiva e que cada R$ 1 investido em biodiesel retorna R$ 4,40 à economia.

Brasil produz etanol de cana, milho e soja

Para atender à escalada da demanda interna e internacional, a matriz produtiva brasileira passa por um processo acelerado de diversificação. A dependência da cana-de-açúcar para o etanol ficou no passado com a ascensão do etanol de milho, que hoje representa 28% da produção nacional do biocombustível.

Empresas como a Caramuru Alimentos e a CJ Selecta já produzem etanol também a partir da soja. O biocombustível é extraído a partir de excedentes do melaço de soja, uma etapa paralela ao esmagamento do grão.

Tanto no caso do milho quanto da soja, as iniciativas desmontam ainda um falso dilema na geopolítica da bioenergia. A produção de combustível ocorre concomitantemente à fabricação de proteína vegetal (farelo), derrubando o argumento de que biocombustíveis concorrem com a produção de alimentos.

Proálcool foi maior e mais duradoura iniciativa em biocombustíveis

O pioneirismo do Brasil na adoção do etanol em larga escala data de 1975, com o lançamento oficial do Proálcool, considerado o maior e mais duradouro esforço mundial de substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis.

A iniciativa foi uma resposta ao primeiro choque do petróleo, em 1973, quando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) quadruplicou o preço do barril, desequilibrando a balança comercial brasileira.

No auge do programa, durante a década de 1980, os carros movidos exclusivamente a álcool chegaram a representar 90% das vendas de veículos novos no país.

Embora o setor tenha enfrentado uma crise no final daquela década devido à queda dos preços internacionais do petróleo e à valorização do açúcar, a base tecnológica foi preservada e permitiu uma nova revolução em 2003, com o lançamento do motor flex-fuel.

Experiência brasileira em biocombustíveis é exportada para outros países

A experiência brasileira em biocombustíveis já é considerada produto de exportação do agronegócio nacional. A Índia é um dos principais casos de sucesso na replicação do modelo.

Após atingir a meta de 20% de mistura de etanol na gasolina (E20) em 2025, o governo indiano agora avança em diretrizes para formalizar o uso de E85 e até do etanol puro (E100), com o objetivo de reduzir drasticamente a dependência de petróleo importado.

O avanço é sustentado por acordos de cooperação técnica e intercâmbio de conhecimento firmados com o Brasil, que permitiram ao país mais populoso do mundo saltar de uma mistura de apenas 2% para os atuais 20% em pouco mais de uma década.

Em março do ano passado, Brasil e Japão assinaram um memorando que trata especificamente de combustíveis sustentáveis. O país asiático anunciou que adotará a mistura E10 até 2030, e que dobrará o porcentual na década seguinte.

O Brasil já exporta etanol para o mercado japonês, mas a expectativa é chegar a 4,45 bilhões de litros por ano com a adoção do E10 no país, e a 9 bilhões de litros anuais com o E20 a partir de 2040.



Fonte ==> UOL

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