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El Niño e aquecimento global encarecem alimentos e energia – 12/07/2026 – Marcelo Leite

A imagem mostra uma área urbana severamente inundada, com grandes extensões de água cobrindo a vegetação e as estradas. No centro, há uma estrada que se estende em direção a um ponto onde a água parece mais profunda. Algumas árvores e arbustos são visíveis, mas a maior parte da paisagem está submersa. O céu está nublado, indicando condições climáticas adversas.

Esqueça por alguns minutos as oitavas de final e o iate de R$ 120 milhões do Neymar. Mesmo que o coração não aperte com milhares de mortes por calor na Europa, o lobo frontal do cérebro implora que se preste atenção no clima, porque El Niño chegou com a força de um trombadinha.

Fique alerta para a alta provável nos preços dos alimentos e da energia. No curto prazo, porque o menino (não o Ney) vai surrupiar colheitas e reservatórios de hidrelétricas. No médio e longo prazo, porque está em curso um arrastão vicioso entre mudança do clima e aumento do custo de vida.

El Niño costuma trazer secas pronunciadas na região Norte do Brasil e chuvas torrenciais no Sul. Além do risco de gaúchos verem se repetir as enchentes trágicas de dois anos atrás, pode sair prejudicada a safra de arroz no Rio Grande do Sul, que concentra 70% da produção brasileira, segundo o ClimaInfo.

Em mesa redonda no Instituto Clima e Sociedade, Eduardo Assad e Guilherme Bastos, professores da FGV, soaram o alarme sobre colheitas de soja, milho, café e laranja: a quebra nessas culturas pode ficar entre 7% e 10% se confirmado um El Niño muito forte.

Anomalias na precipitação desfalcarão igualmente reservatórios de água. Não só para abastecimento humano, o que já causa preocupação na região metropolitana de São Paulo, mas para geração de eletricidade.

Diminuída a produção de energia por usinas hidráulicas, entram em linha as termelétricas, que têm custo alto e encarecem contas de luz. Outro efeito perverso: movidas a óleo combustível ou carvão, elas emitem mais carbono e realimentam o efeito estufa.

O círculo vicioso ganha ímpeto pelo aumento da demanda por eletricidade. Com as temperaturas em alta, as pessoas se protegem comprando e ligando aparelhos de ar-condicionado —se e quando forem capazes de pagar por isso. É injustiça climática que chama.

O impasse do agronegócio tampouco fica limitado à temporada El Niño. Há evidências de que a mudança do clima e a degradação ambiental estão tirando força da máquina de commodities agrícolas que enriqueceu o centrão freguês do negacionismo.

Ruralistas duvidam do aquecimento global, mas deveriam confiar em estatísticas como confiam em satélites. Um mês atrás saiu no periódico PNAS artigo correlacionando desmatamento e diminuição de chuvas com reduções de safras de soja, leguminosa que tem o Brasil como maior produtor e exportador mundial.

Pode parecer provocação à Neymar, mas pesquisadores do grupo internacional encabeçado por Hao Li, de Hong Kong, elegeram como área de interesse justo o sul do Brasil, buscando detectar ali o impacto da devastação na Amazônia. É o tema em alta das teleconexões climáticas, ou efeitos de longa distância.

O time não economizou dados, levantando cifras de desmate, diminuição de chuvas e safras ao longo de 36 anos, de 1982 a 2018. Encontraram que o desmatamento recente reduziu a precipitação sazonal entre 6% e 30% e induziu quebras de safra nos estados produtores de soja, de modo mais acentuado no Rio Grande do Sul, onde a perda na colheita chegou a 6%.

Quem não acredita na ciência vai sentir no bolso. Aliás, todos terão de pagar o pato, acreditando ou não.



Fonte ==> Folha SP

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