Flávio Bolsonaro tenta secar gelo. Há uma semana ele repete que é fake news a história de que pretende tirar de Nossa Senhora Aparecida o posto de padroeira do Brasil. Ele tem razão. Mas o eleitor católico não está julgando o que Flávio disse. Está julgando o que evangélicos, alguns próximos a ele, vêm dizendo e fazendo há décadas.
A lista é longa. Em 1995, um bispo da Igreja Universal chutou uma imagem de Aparecida na TV, no dia da santa. Em 2001, JB Carvalho, fundador da igreja em que Flávio foi batizado, escreveu num livro que “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”, um dos títulos de Maria. Em 2007, um deputado evangélico propôs que Aparecida deixasse de ser padroeira do Brasil para ser padroeira só dos católicos. Cidades como Carapicuíba (SP) e Nova Iguaçu (RJ) instalaram na entrada placas avisando que pertencem a Jesus.
Foi nesse contexto que Flávio prometeu, em agosto, que um de seus primeiros atos como presidente seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Para muitos católicos, a frase soou como bandeira fincada em território conquistado.
Nem todo evangélico pensa assim. Luteranos e anglicanos dialogam com Roma há décadas. Mas há uma face mais aguerrida do evangelicalismo, e ela não age por capricho, age por teologia.
A Reforma do século 16 rejeitou a autoridade do papa e ensinou que só Cristo faz a ponte entre o fiel e Deus. Nessa lógica, pedir a intercessão de santos é desvio, e venerar imagens é idolatria. Isso se prega abertamente nos púlpitos.
Essa face cresceu depressa. Os evangélicos passaram de 9% para 27% da população em três décadas, sobretudo à custa dos católicos. Um crescimento rápido, feito sobre o rebanho alheio, com presença estridente da mídia e tratando a fé dos outros como erro, deixa um estoque de rancor. É essa conta que chegou a Flávio.
Ele pediu por ela. Jair Bolsonaro se deixou batizar no rio Jordão, mas seguiu se dizendo católico e foi a Aparecida em campanha. O filho abandonou a ambiguidade. Foi batizado numa igreja evangélica em 2024, recorre ao idioma dos púlpitos e visita fartamente templos evangélicos. Apostou que o apoio desse grupo bastaria para vencer.
Agora está contra a parede. Nesta segunda (28), num ato em São Paulo, ergueu uma imagem de Aparecida ao lado de Tarcísio de Freitas. Para os católicos, o gesto chegou tarde. Para os evangélicos, dá um sinal errado: soa oportunista e reforça a suspeita de que Flávio é mais político do que crente.
As pesquisas registram o custo. Na BTG/Nexus feita de 25 a 27 de setembro, Flávio caiu de 62% para 57% entre evangélicos, e Lula subiu de 26% para 31%. Entre católicos, Lula foi de 44% para 47%. Flávio quis herdar a força do grupo e herdou também a fama de intolerante.
Insistir no desmentido mantém a santa no centro da conversa. Posar com ela irrita a base. Resta abandonar essa frente. Vem aí o debate, depois o segundo turno, e cada etapa traz outros temas.
Religião, só em agendas com líderes de várias fés, com uma mensagem simples: cada um tem direito à sua.
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Fonte ==> Folha SP