A atriz e cineasta Helena Ignez está radiante. Vê agora o bairro onde vive, em torno da praça da República, ser considerado um dos 40 mais legais do mundo pela revista inglesa Time Out. Ela concorda plenamente com a escolha. Musa do cinema novo e marginal e incansável trabalhadora, foi agraciada com o título de Cidadã Paulistana em 2007, o que só fortaleceu sua ligação histórica com São Paulo.
Morando a maior parte do tempo na cidade, em um prédio na rua Nestor Pestana comprado há 24 anos, Helena, que nasceu em Salvador e foi casada com o diretor Glauber Rocha, não consegue mais encontrar um porto tão seguro em outro lugar. Adora passear pela região e se comove com a cordialidade dos paulistanos.
“O que me atrai em São Paulo é a intensa vida cultural, as ruas, a circulação de gente e os encontros, que são o tema de todos os meus filmes”, diz. “A cidade me deu uma resposta amorosa logo que vim para cá. O meu edifício é um encanto e todo mundo se cumprimenta. É algo que não vejo no Rio.”
Helena chegou a São Paulo em 2001, no fatídico dia 11 de setembro. Veio para trabalhar na Secretaria de Cultura da cidade a convite do diretor do departamento de Formação Cultural, Antônio Sartini, na gestão de Marta Suplicy. Era a primeira vez que tinha carteira assinada. Também atuou na peça “Antiga”, de Dionísio Neto. Passou um ano em hotéis, mas, em 2002, encontrou seu apartamento, financiado pela Caixa Econômica e pago em 17 anos.
Sua carreira se reativou e ela embalou outros trabalhos, como a peça “Os Sete Afluentes do Rio Ota”, de Robert Lepage, dirigida por Monique Gardenberg com longa temporada na cidade. Ainda assim alternava sua vida entre São Paulo e Rio de Janeiro, onde ficava sua residência principal e estava o segundo marido, o cineasta Rogério Sganzerla. Ele, porém, adoeceu em 2003 e, em busca de melhores condições de tratamento médico, deixou o Rio. Ficou oito meses morando no apartamento com Helena, até falecer em janeiro de 2004.
Ela já havia passado um bom período na capital paulista no final dos anos 1960, quando atuou nos filmes “O Bandido da Luz Vermelha” e “A Mulher de Todos”, dirigidos por Sganzerla, e trabalhou no espetáculo “Hair”. Lembra-se desse momento como muito cansativo. Também destaca a intensa vida noturna da cidade e o trânsito caótico. Um de seus locais preferidos para se divertir era a rua Sete de Abril. Em 1970, voltou ao Rio para trabalhar na lendária produtora do cinema marginal Belair, que o marido havia criado com o cineasta Júlio Bressane.
Hoje, Helena se acostumou com o trânsito paulistano, que a afeta pouco porque ela não dirige. Opta pelas caminhadas, principalmente pelo Copan, onde frequenta a livraria Megafauna e restaurantes como o Bar da Dona Onça. Gosta também do Nutrisom, hoje chamado Apfel, no viaduto Nove de Julho. Quanto aos problemas do centro, ela é econômica.
“Meu apartamento é pequeno, mas tem uma varandona. Em geral, é bem silencioso, mas teve uma obra aqui perto que durou três anos e algumas vezes o barulho me incomodou bastante”, afirma. “Acho que a região evoluiu, mas ainda há muito a ser feito, principalmente em relação à população de rua.”
Aos 87 anos, Helena não para. Brilha atualmente na 74ª “Ocupação Itaú Cultural”, que homenageia sua vida e obra. Ao mesmo tempo, está em cartaz com a peça “Fim de Partida”, de Samuel Beckett, dirigida por Rodrigo Portella. A montagem passou por São Paulo, rodou o Nordeste e está em temporada no Rio. Além disso, atua no curta-metragem “Des-criação”, dirigido pelo genro André Guerreiro Lopes, e trabalha em uma nova montagem de “Savannah Bay”, de Marguerite Duras, marcada para estrear em outubro.
Para o ano que vem está prevista a rodagem do longa-metragem “Dora”, com roteiro de sua autoria elaborado durante dois anos. Ela conseguiu recursos do ProAC (Programa de Ação Cultural) do governo paulista. A personagem principal é inspirada na dançarina Luz del Fuego. O filme terá locações em São Paulo e em Iguape, no sul do estado, e abrangerá o período pré-1964.
Fonte ==> Folha SP