O Fórum Econômico Mundial deste ano, o maior já realizado na história, deixou claro que Davos não é mais um espaço para prever tendências.
É onde se testam narrativas, se medem forças e se antecipam decisões que vão moldar mercados, empresas e trabalho nos próximos anos. Participar do Fórum pela terceira vez —agora também como integrante de um Global Future Council— torna isso ainda mais evidente.
Vivemos uma nova ordem global. Estados Unidos, China e Europa competem abertamente por três ativos estratégicos do século 21: inteligência artificial, energia e acesso a mercados.
Essa disputa não é abstrata. Ela define quem lidera inovação, quem captura valor e quem fica dependente de decisões tomadas fora de casa.
Nesse cenário, o debate sobre o futuro do trabalho mudou de patamar. A inteligência artificial já transformou ocupações, cadeias produtivas e modelos de negócio.
A pergunta relevante agora não é se isso vai acontecer, mas sob quais regras. Em Davos, o tom foi mais pragmático do que alarmista. Há um otimismo crescente sobre o efeito líquido da IA na geração de empregos, desde que sua adoção seja intencional e orientada por princípios claros.
Tecnologia, sozinha, não resolve nada. Sem decisão, ela amplia desigualdades. O estado “natural” do sistema econômico é excludente. Se crescimento não vier acompanhado de inclusão, a inovação concentra ganhos em vez de distribuir prosperidade.
Esse risco é ainda mais evidente quando olhamos para o recorte de gênero, já que muitas das funções mais impactadas pela automação são hoje ocupadas por mulheres.
Ao mesmo tempo, um movimento estrutural começa a redesenhar o tabuleiro econômico global. Uma grande transferência de riqueza está em curso.
Estima-se que cerca de US$ 83 trilhões serão transferidos entre gerações nas próximas décadas. Até 2030, as mulheres devem controlar quase 40% da riqueza global investível.
Esse dado não é simbólico. É estratégico. Não se trata apenas de novos padrões de consumo, mas de decisões de investimento.
Mais mulheres alocando capital significa mais recursos direcionados a empresas lideradas por mulheres, mais financiamento para inovação e maior participação feminina no desenvolvimento de tecnologias como a inteligência artificial.
Mas esse potencial só se concretiza se enfrentarmos, agora, as desigualdades do presente no mercado de trabalho e no acesso a capital.
É por isso que liderança feminina apareceu em Davos menos como pauta identitária e mais como vantagem competitiva.
Em um ambiente de alta complexidade, pressão regulatória, transformação tecnológica acelerada e instabilidade geopolítica, cresce a demanda por lideranças capazes de integrar crescimento, gestão de risco, pessoas e impacto de longo prazo. Isso não é ideologia. É estratégia.
O mesmo vale para a agenda climática. O Fórum Econômico Mundial deixou claro que sustentabilidade e desempenho econômico não são opostos. O desafio está em atualizar a narrativa.
Avançar na descarbonização global exige conectar clima a progresso humano, inovação e bem-estar, construindo pontes em um mundo cada vez mais polarizado.
Davos não entrega respostas prontas, mas deixa um recado claro. O futuro do trabalho, da economia e da liderança não será definido pela tecnologia em si. Será definido por quem entende que equidade, inovação e crescimento não competem entre si. Eles se reforçam.
E quem não decidir agora, vai executar decisões tomadas por outros.
Fonte ==> Folha SP