Em Quincas Borba, Machado de Assis pôs na boca de seu personagem a fórmula do “Humanitismo”: ao vencedor, as batatas. Duas tribos famintas brigam por um campo de batata. Quem vence come, quem perde morre. Cínico? Talvez. Honesto? Sempre.
Lembrei da frase ao ler que o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor no dia 1º de maio, depois de 26 anos de negociação. Setecentos e vinte milhões de consumidores em uma só zona econômica, um pacto que zera tarifas sobre 91% dos bens europeus que entram aqui e 95% dos nossos que vão para lá. Como o setor de saúde, wellness e estética vai ler isso? Depende de quem está lendo.
A clínica que comprou equipamento na promoção do importador suspeito, sem certificação, sem manutenção, sem treinamento de equipe, vai descobrir que o aparelho alemão, italiano, francês passa a chegar mais barato. Pior para ela. A esteticista que se formou em curso de fim de semana e cobra preço de profissional sênior vai disputar cliente com produto europeu de marca consolidada que entra no varejo por menos. Pior para ela. O empresário que vive de margem inflada por mercado fechado vai ver concorrente de verdade chegando. Pior para ele.
Para quem se preparou, é o oposto. Para quem investiu em equipamento sério, em método, em equipe formada, em pesquisa, o acordo é janela. O laser europeu que custava o preço de um carro popular vai custar o de uma boa moto. O ativo cosmético suíço que entrava taxado vai chegar competitivo. A cliente brasileira que merece o melhor vai ter acesso ao melhor sem pagar barreira tarifária embutida no preço, e o profissional brasileiro que sempre comprou caro o que o concorrente europeu comprou barato finalmente joga em pé de igualdade.
Essa é a parte que pouco se discute. Abertura comercial não é favor para grande empresa, é filtro. Separa quem fez lição de casa de quem viveu de protecionismo disfarçado de patriotismo.
Vou mais longe. A coluna de hoje é sobre o meu setor, mas o princípio vale para qualquer cadeia produtiva do país. Décadas de mercado fechado nos entregaram o quê? Carro caro e ruim, eletrodoméstico medíocre, cosmético sem inovação real, com raras e honrosas exceções, e cadeia de suprimentos travada em insumo nacional fraco porque o importado era proibitivo.
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A indústria europeia de beleza não chegou aonde chegou por sorte. Chegou por décadas de pesquisa, capital, exigência regulatória e disputa interna feroz. Quando esse repertório encontra o nosso, dois caminhos se abrem. O primeiro é o do empresário brasileiro que vê a régua subir e sobe junto, e o segundo é o do que reclama, pede salvaguarda, lobby, exceção. Adivinha qual deles fica com as batatas no final?
Para o histórico comercial que construímos, o acordo é oportunidade. Já produzimos, já formamos profissional, já criamos técnica reconhecida no exterior, e agora competimos de igual para igual com quem nos inspira, e claro, vamos vender também. Cosmético brasileiro, método brasileiro, evento brasileiro têm muito a oferecer ao consumidor europeu que cansou de mais do mesmo. Lisboa, Madri, Milão são portas de entrada naturais para quem fala a língua e entende a cultura. O Brasil só perde quando o Brasil não joga, mas agora estamos no campo e que vença o melhor.
Fonte ==> Folha SP