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Wollying: qual é o custo humano dessa violência

Myrinha Vasconcellos em retrato institucional usando blazer azul, com expressão serena e postura acolhedora.
A articulista Myrinha Vasconcellos analisa os impactos emocionais invisíveis do WOLLYING e o custo humano da violência psicológica entre mulheres.

“Toda violência tem um custo. O problema é que algumas vítimas pagam essa conta em silêncio.”

Primeira Camada: O Olhar da Psicologia
Quando pensamos em violência, nossa mente costuma associá-la a agressões físicas, lesões corporais ou marcas visíveis deixadas sobre a pele. Entretanto, existem feridas que não aparecem em exames médicos, não deixam hematomas e não produzem cicatrizes visíveis. Entretanto, ainda assim, possuem o poder de transformar profundamente a vida de uma pessoa.

O WOLLYING, entendido como a violência praticada por uma mulher contra outra mulher por meio de humilhações, deboches, exclusões, desqualificações, perseguições emocionais e comportamentos destinados a diminuir, enfraquecer ou apagar a outra, produz um sofrimento frequentemente invisível aos olhos da sociedade. A dor não sangra. A ferida não aparece, mas seus efeitos podem ser devastadores.

Refletindo sobre o custo humano dessa violência, torna-se indispensável buscar ouvir a Psicologia. Afinal, antes de provocar consequências jurídicas e/ou clínicas, a violência emocional costuma atingir aquilo que existe de mais íntimo no ser humano: sua autoestima, sua identidade, seu senso de pertencimento e sua percepção de valor pessoal.

O psicólogo Carl Rogers, um dos maiores expoentes da Psicologia Humanista, defendia que o ser humano necessita de aceitação, respeito e consideração positiva para desenvolver plenamente suas potencialidades. Sua obra demonstra que o crescimento emocional saudável depende de ambientes que favoreçam acolhimento, respeito e reconhecimento.

Sob essa perspectiva, a mulher submetida continuamente a críticas destrutivas, humilhações, ironias e desqualificações pode passar a questionar sua própria capacidade, seu valor e até mesmo sua identidade. Não raramente, a vítima começa a duvidar de si mesma, perde a confiança em suas habilidades e passa a enxergar defeitos onde antes via qualidades.

A violência psicológica tem a capacidade de corroer silenciosamente a autoestima. Diferentemente de uma agressão física, cujo impacto costuma ser imediato e perceptível, a agressão emocional muitas vezes se instala de forma lenta e gradual. É uma erosão invisível que vai desgastando a segurança emocional da vítima pouco a pouco.

Essa reflexão encontra importante respaldo nos estudos de Abraham Maslow, criador da conhecida Teoria da Hierarquia das Necessidades Humanas. Para Maslow, além das necessidades básicas de sobrevivência, o ser humano necessita sentir-se aceito, pertencente, valorizado e respeitado. O sentimento de pertencimento constitui uma necessidade psicológica fundamental.

Nessa esteira, quando uma mulher é sistematicamente excluída, ignorada, ridicularizada ou socialmente apagada por outra mulher, ela não sofre apenas um desconforto passageiro. Sofre uma agressão que alcança necessidades emocionais profundas ligadas à integração social, ao reconhecimento e à dignidade pessoal.
O isolamento social, a exclusão deliberada e o apagamento emocional representam formas particularmente cruéis de violência, porque atingem um dos pilares da condição humana: a necessidade de pertencermos a grupos, comunidades e relações significativas.

Outra importante contribuição para essa análise encontra-se nos estudos do psicólogo Martin Seligman, reconhecido internacionalmente por suas pesquisas sobre a chamada “impotência aprendida”. Segundo Seligman, quando uma pessoa é submetida repetidamente a situações de sofrimento, rejeição ou hostilidade sobre as quais acredita não possuir controle, pode desenvolver sentimentos de desesperança e incapacidade de reação.

Essa teoria ajuda a compreender por que algumas vítimas de violência emocional prolongada passam a acreditar que não existe saída para sua situação. Não porque sejam frágeis. Não porque lhes falte inteligência. Mas porque o sofrimento contínuo pode enfraquecer gradualmente a esperança, a confiança e a percepção de que mudanças são possíveis.

Talvez resida aí uma das faces mais perversas do WOLLYING. A vítima não sofre apenas pela agressão recebida. Sofre também pelas consequências emocionais que essa violência pode produzir ao longo do tempo: insegurança, medo, tristeza persistente, retraimento social, perda da autoestima e enfraquecimento da esperança.

É por essa razão que o custo humano dessa violência não pode ser medido apenas pelas palavras proferidas ou pelos atos praticados. O verdadeiro custo humano encontra-se nos danos emocionais que permanecem muito depois que a agressão termina.

O ato violento pode durar minutos. As consequências emocionais podem durar anos. Compreender essa realidade é o primeiro passo para que a sociedade reconheça a profundidade dessa ferida invisível.

A Psicologia nos ajuda a entender como a violência emocional pode atingir a autoestima, o sentimento de pertencimento e a esperança da vítima. Mas uma pergunta ainda permanece: o que acontece quando esse sofrimento deixa de ser apenas emocional e passa a comprometer a própria saúde mental?

Essa será a reflexão do próximo artigo, quando analisaremos o WOLLYING sob a ótica da Psiquiatria e os impactos que a violência psicológica prolongada pode produzir na saúde mental das mulheres.

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