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Gabriel Villela encena ‘Medea’ contra a barbárie – 12/02/2026 – Mise-en-scène

Gabriel Villela encena 'Medea' contra a barbárie - 12/02/2026 - Mise-en-scène

“Medea”, na versão do filósofo romano Sêneca, sob a direção de Gabriel Villela, resgata uma obra que, historicamente, foi relegada aos gabinetes de leitura, sob o argumento de que sua violência extrema e sua retórica densa seriam insuportáveis para a encenação. Villela transforma seu horror retórico em uma ferramenta de análise política, social e ambiental, espelhando as “barbáries atuais” através da fúria da personagem mítica.

Optando pela versão romana em vez da grega de Eurípides, Villela realiza uma espécie de desvio. Abraça a musculatura moral, o rigor retórico e a violência explícita de Sêneca, onde a responsabilidade pelos atos recai inteiramente sobre os indivíduos, refletindo a filosofia estóica do autor.

A montagem, na tradução de Ricardo Duarte, apresenta uma Medea que é uma agente de destruição consciente. O projeto nasceu da releitura, durante a pandemia, de um material guardado por Villela desde sua formação na ECA-USP, encontrando na frase “eu vou convulsionar o mundo” um diagnóstico para as crises contemporâneas.

A tripla encarnação de Medea por Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros é a espinha dorsal conceitual e emocional da montagem de Gabriel Villela. Mais do que dividir um papel extenso, a escolha desdobra a personagem em suas dimensões temporal, espiritual e política.

Rosana Stavis é o corpo presente da ação, a força narrativa que conduz a tragédia em tempo real, iniciando envolta em um casulo que simboliza a compressão antes da explosão. Mariana Muniz corporifica a conexão mística e revolucionária com as forças da natureza, transformando sua magia em uma metáfora da rebelião ecológica.

Walderez de Barros, em uma participação breve, entrega o peso último da tragédia no solilóquio final. Sua presença solene e sua voz grave materializam não apenas a hesitação materna, mas a sabedoria feroz de quem acumula décadas de existência e resistência.

Juntas, as três atrizes constroem um retrato do feminino que recusa o apagamento, mostrando a fúria em seus diversos estágios. Um triunfo de concepção e interpretação.

A assinatura visual de Villela funde o erudito e o popular. A cenografia de J. C. Serroni mescla o palácio e o circo mambembe, enquanto os figurinos, desenhados pelo diretor, incorporam elementos do cerrado mineiro. A frontalidade absoluta é a opção interpretativa: os atores dirigem seus discursos à plateia, transformando o palco em uma tribuna de julgamento público.

Carlos Zimbher cria pontes com o contemporâneo em sua trilha sonora, incluindo a canção “Basta um dia”, de Chico Buarque – imortalizada na voz de Bibi Ferreira no musical “Gota d’Água” (1975), uma adaptação do mito em sua chave grega. A encenação explora temas urgentes como o etarismo e o silenciamento político, apresentando a revolta de Medea como uma resposta ao descarte social.

O clímax do infanticídio é tratado com linguagem visual metafórica. As crianças são representadas por retalhos de pano e depois guardadas em jarras com água, deslocando a violência para o plano simbólico e da contemplação.

Villela utiliza a peça como plataforma para denunciar a barbárie institucionalizada e a degradação ambiental, traçando paralelos com figuras políticas atuais. A montagem defende um teatro que resiste ao consumo rápido, propondo a tragédia senequiana, em sua fúria desmedida, como um alerta contra a desumanização e a perda da responsabilidade ética.

Três perguntas para…

… Gabriel Villela

Você mencionou em entrevista que retomou um texto da época da ECA-USP durante a pandemia. O que exatamente na voz de “Medea” de Sêneca ecoou como “um diagnóstico do presente” naquele momento de isolamento e crise global?

Durante o período de estudos na ECA, mergulhamos no centro nevrálgico da tragédia grega e, posteriormente, da comédia. Tomamos conhecimento da “Medea” de Sêneca por pesquisa, assim como existe a de Racine, na França. Entrei em contato com uma tradução belíssima de Coimbra e a peça surgiu fortemente como um grande discurso sobre os nossos tempos.

Mesmo antes da retomada da extrema-direita no mundo, com características nazistas e fascistas, o verbo de Sêneca — seu teatro e seu pensamento filosófico — me pareceu muito oportuno. Já naquela época se falava da destruição da natureza, e a Medeia é uma grande metáfora sobre o Antropoceno, sobre o homem como um vírus letal. Retomei esses estudos pós-Hamlet e só me vinha à cabeça que o próximo passo deveria ser Sêneca. É uma memória que vem da ECA e que ecoou como um diagnóstico do presente durante o isolamento.

A decisão de dividir o papel entre Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros é brilhante e complexa. Como foi o processo de definir quais camadas da personagem cada atriz representaria? Como elas dialogavam nos ensaios para compor uma unidade a partir da fragmentação?

Elegemos três instantes no nosso estudo em mesa. Eu queria muito voltar a trabalhar com a Walderez, a Rosana e a Mariana; três grandes atrizes que modificaram minha vida em termos de processamento de ideias. Emanavam do texto monólogos com personalidades muito distintas, como se a Medea estivesse fragmentada em partes, cada uma revelando uma face distinta e muito definida.

Então a decisão de dividir o papel entre as três partiu do texto. Rosana atravessa a peça como a Medea em Corinto. Mariana comparece como a Medea das bruxarias, na Cólquida, num ambiente mitológico. Walderez aparece como o ambiente da mesa, o trabalho de pensamento que precede a cena. Trabalhei com ela em “Hécuba”, e ela me ensinou que a voz trágica não tem registro — não havia microfone, nem gravador. Ela traz aquilo que se fala, se diz e se pensa antes da construção tridimensional da cena.

A cenografia mescla o palácio e o circo mambembe, os figurinos trazem o cerrado mineiro, a trilha incorpora Chico Buarque. Como essa síntese entre o clássico universal, o popular e o regional brasileiro serve à sua leitura política do mito?

A encenação parte de uma alquimia mineira, elevando Minas a um estado Barroco com ouro no figurino e na cenografia do Serroni. É um trabalho afetivo e antropológico, que buscava um choque estrutural rumo à selvageria.

A frase de Medeia — “Eu vou convulsionar o mundo” — ecoa tanto a crueldade de ditadores que subvertem a democracia quanto a convulsão da natureza e dos extremos climáticos. Por isso, trouxe elementos orgânicos: palha, sementes do cerrado, favas. Sobre o Chico Buarque, eu já havia dirigido uma trilogia sua, e “Gota d’Água” sintetiza a Medeia antiga em versos, com uma força popular que localiza o mito num cortiço carioca — uma chave de acesso poderosa hoje, quando a norma culta já não nos é natural.

Meu teatro sempre navega entre o popular e a erudição, como antídoto à ignorância. O figurino vem da minha origem familiar: teares manuais, criação de carneiros, tinturas naturais como pau-brasil e anil. Valorizo o artesanal, onde a mão humana supera a máquina industrial. Essa síntese entre clássico, popular e regional é política: mergulhar no popular nos aproxima de um gabarito universal, acessível a qualquer cultura. Estudei o barroco mineiro de São João del-Rei a Ouro Preto antes de chegar ao esplendor de Praga. Aos 67 anos, vejo isso como uma experiência de caminho nas artes cênicas.

Sesc Consolação – rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, região central. Qui. a sáb., 20h. Dom., 18h. Sessões com horários diferenciados: 14/2 (sáb.), 18h. 26/2 e 5/3 (qui.), 15h. Até 8/3. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 21 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades



Fonte ==> Folha SP

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