A culpa é dos poetas. Eles não se cansam de invocar as musas em busca de inspiração para suas criações. Recorreram à harmoniosa Calíope Homero, Vergílio e, mais para os nossos lados, Camões. Não é de surpreender que tenhamos ficado com a impressão de que a criatividade —e a inovação de um modo mais geral— depende de uma epifania, uma intervenção do divino, ou, pelo menos, que envolva um lance de genialidade.
Os poetas estão errados. E quem o prova são as inteligências artificiais (IAs). Estruturalmente, IAs não passam de papagaios estocásticos. O que elas fazem é, a partir das quantidades colossais de dados em que são treinadas, prever a próxima palavra mais provável numa sequência. Elas não teriam aquilo que humanos chamaríamos de “compreensão verdadeira” das respostas que geram. Elas seriam pura sintaxe com zero de semântica. Ainda assim, é difícil negar que IAs sejam capazes de inovação, quando se considera que apresentam soluções inéditas para problemas matemáticos e criam códigos complexos que não faziam parte de sua base de treinamento.
Vejo duas possibilidades de solução do paradoxo. A mais simples, na linha competência prescinde de compreensão, é que superestimamos a noção de criatividade. Inovar, no mais das vezes, não passa de juntar de forma inesperada ideias já conhecidas. E isso máquinas podem fazer melhor do que humanos.
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A segunda resposta carrega algo de fantasmagórico. Talvez existam fenômenos emergentes que ainda não detectamos pelos quais as máquinas, a fim de prever melhor a próxima palavra, acabam criando sistemas internos de representação (modelos de mundo) que seriam um correlato da compreensão humana. É um prato cheio, não para poetas, mas para ficcionistas do tipo Mary Shelley com seu Frankenstein.
Qualquer que seja a solução, a criatividade depende menos de musas do que de experimentar, avaliar e modificar, tantas vezes quantas se fizerem necessárias. Poetas estavam errados, mas, diferentemente de Platão, não vejo razão para bani-los da República.
Fonte ==> Folha SP