“O Grande Arco de Paris” é uma tripla surpresa. Um, seu título não se refere ao Arco do Triunfo cansado de guerra. Dois, trata de arquitetura, o que é raríssimo no cinema. Três, toma partido da Dinamarca e espicaça a França —sua burocracia mumificada, a coabitação de primeiros-ministros e presidentes antagônicos, as regras esfíngicas de construção.
O protagonista, o arquiteto dinamarquês Otto von Spreckelsen, tem a obstinação dos puros e a teimosia dos tapados. Ele venceu, em 1982, o concurso para fazer o Arco de la Défense —um cubo faraônico—, apesar de ter projetado apenas uma casa e quatro igrejas.
A trama encena o choque entre arquitetura e poder, o sonho esplêndido e o orçamento miúdo, a aspiração ao novo e costumes podres. A síntese das contradições é François Mitterand, o presidente com vocação para Ramsés 2º que queria se eternizar com o Grande Arco e a Pirâmide do Louvre. O filme louva o neofaraó, mas basta uma olhadela em La Défense para concluir que o cubo é indefensável.
“Power to the People” reproduz uma apresentação de John Lennon e Yoko Ono, em agosto de 1972, no Madison Square Garden. Graças a Clio, a divindade do júbilo, não há um Nelson Motta que se meta a explicar o passado. Basta a música para exorcizar a melancólica encenação da saudade. Foi só um show, e acabou.
Um show político. No filme, “Give Peace a Chance” está longe de ser uma exortação pacifista genérica de, digamos, Michael Jackson, o pedófilo argentário; é um ataque direto à agressão americana no Vietnã. Já “Power to the People” não é uma conclamação à derrubada do status quo num único país, mas um apelo à revolução da vida em todos.
A revolução é encenada quando Yoko e Lennon chamam ao palco uma alegre multidão, da qual fazem parte o poeta Allen Ginsberg e o cantor Stevie Wonder. Nada disso tem cabimento hoje porque, reconheça-se, vivemos hoje no melhor dos mundos.
“A Divina Sarah Bernhardt” parte de uma proposição impossível: mostrar que uma atriz é o máximo, mas sem mostrá-la em ação. A impossibilidade é inerente ao teatro. Ele existe em determinada encenação, num palco específico, ao vivo. Quem viu, viu; quem não, baubau.
Teatro não é cinema, cujas imagens reproduzidas em telonas e telinhas fazem com que até no Cambuci se saiba que Catherine Deneuve é boa atriz. Já no teatro não há imagens da “Divina” em ação, todos que a viram atuar morreram de há muito.
Para mostrar seu talento, Sandrine Kiberlain teria de encarnar Sara Bernhardt encarnando “A Dama das Camélias”, peça da qual não há registros, só resenhas. Kiberlain é uma atriz interessante, mas não faz milagres. Quem os fazia era Sarah Bernhardt, que levou 600 mil pessoas a seu enterro em Paris, em 1923.
“O Mago do Kremlin” é um romance histórico do ítalo-suíço Giuliano da Empoli, que o escreveu em francês. Lançado em 2022, vendeu meio milhão de exemplares só na França e foi publicado em 30 países. O sucesso inesperado talvez se deva à recusa de Empoli em caricaturizar e satanizar Vladimir Putin, enfadonho cacoete da intelligentsia europeia.
O livro deu origem a um filme com roteiro do escritor Emmanuel Carrère e de Olivier Assayas, que também o dirigiu. Como são profissionais respeitados, e Jude Law faz o papel de Putin, criou-se a expectativa que, finalmente, o cinema político chegaria ao grande público.
O filme foi um rotundo fracasso. É tão chato que nem animou os resenhistas franceses a estraçalhá-lo, algo que costumam fazer com prazer sádico. Ao contrário do romance, o Putin de Carrère, Assayas e Jude Law é um vilão frio e calculista, carcomido como a expressão “frio e calculista”.
A única utilidade do filme é demonstrar pela enésima vez —vide “Lawrence da Arábia“, vide “Gandhi“— que o cinema político tradicional é uma forma estética incapaz de dar conta da complexidade de figuras históricas. O último filme com um vulto histórico que disse algo foi lançado há 99 anos —”Napoleão”, de Abel Gance.
Não sei você, mas fui assistir a “O Diabo Veste Prada 2” para ver as roupas. O Balenciaga vermelho de Meryl Streep; o camisolão de estampa Mondrian, de Gabriela Herst, usado por Anne Hathaway; e o corpete-paletó da Dior de Emily Blunt valeram a viagem. Pena que sejam mostradas aos retalhos, numa edição ultrarrápida que impede o deleite.
Quanto ao enredo, não dá para entender por que se lamenta o fim das revistas de moda. Alguém acha que eram algo além de propaganda?
Fonte ==> Folha SP