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O ajuste do dólar e os limites do Brasil – 18/02/2026 – Solange Srour

O ajuste do dólar e os limites do Brasil - 18/02/2026 - Solange Srour

A atual depreciação do dólar ocorre em um contexto que, à primeira vista, soa contraditório. A economia americana continua crescendo de forma consistente, com inflação resiliente —um ambiente que, em princípio, favoreceria uma moeda mais forte. Ainda assim, observa-se um movimento persistente de diversificação nos portfólios globais, que já levou o dólar a cair cerca de 10% desde o início de 2025 em relação a uma cesta de moedas, aproximando-se de sua mínima em quatro anos.

Desde o pós-guerra, o sistema monetário global se organizou em torno de um arranjo que permitiu aos Estados Unidos financiar déficits domésticos e externos elevados com poupança estrangeira. Bancos centrais e investidores internacionais reciclaram suas reservas em ativos denominados em dólar, sobretudo em títulos do Tesouro americano. Esse modelo trouxe benefícios relevantes: financiamento em moeda própria, elevada liquidez e redução dos prêmios de risco. Essas condições garantiram aos EUA o chamado “privilégio exorbitante” de viver, por décadas, acima de seus meios.

Esse arranjo, no entanto, vem sendo gradualmente reavaliado. Em 2015, o dólar representava cerca de 64% das reservas cambiais globais, segundo dados do FMI. Hoje, essa participação recuou para quase 58%. Já o estoque de Treasuries em mãos de não-residentes também caiu, de 36% para algo próximo de 32%.

Alguns fatores ajudam a explicar esse movimento. A combinação entre endividamento público elevado e elevação estrutural dos juros globais alterou o regime de sustentabilidade da dívida americana, elevando o prêmio exigido para manter exposição prolongada a ativos em dólar e reduzindo a tolerância a concentrações excessivas. Soma-se a isso a deterioração gradual da previsibilidade institucional nos Estados Unidos, com o uso recorrente de instrumentos executivos para implementar políticas econômicas relevantes sem respaldo legislativo e tentativas de interferência na autonomia do Federal Reserve.

Outro vetor importante é o uso do dólar como instrumento geopolítico —por meio de sanções financeiras e da imposição de regras no sistema SWIFT, responsável por viabilizar transferências internacionais—, que tem incentivado maior cautela entre parceiros comerciais e financeiros, estimulando a busca por alternativas.

Essa reconfiguração dos portfólios globais produz efeitos visíveis nas economias emergentes. No Brasil, a entrada de mais de US$ 30 bilhões de recursos estrangeiros na B3 neste ano, valor superior ao registrado em todo o ano de 2025.

Esse ambiente externo favorável poderia ser aproveitado para fortalecer os fundamentos macroeconômicos. No entanto, o país tem optado por ampliar sua vulnerabilidade por meio de pautas que pressionam o gasto público e reduzem a previsibilidade fiscal. A Câmara articula a inclusão, na PEC do fim da jornada 6×1, de uma nova desoneração da folha de pagamento —uma política que já se mostrou cara, com elevado custo fiscal, sem produzir ganhos de produtividade. Ao mesmo tempo, aprovou a redução das alíquotas de PIS e Cofins para a indústria química e petroquímica, ignorando a tão onerosa necessidade de reduzir benefícios tributários.

Em outras palavras, o vento externo favorável tende apenas a gerar um alívio temporário. Em vez de consolidar as bases necessárias para sustentar um ciclo de estabilidade, o país insiste nas velhas políticas de gastar sem restrições e postergar ajustes. O enfraquecimento do dólar contribuiu para uma queda relevante da inflação e das expectativas, permitindo ao Banco Central sinalizar o início de um ciclo de afrouxamento monetário. No entanto, a convergência para juros estruturalmente mais baixos segue fora do horizonte.



Fonte ==> Folha SP

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