Isso é uma provocação, claro, e um tanto de despeito por não ter a compulsão, a disposição, o dinheiro, nem –talvez– o tempo de corte exigido para participar da maratona das maratonas, que nesta segunda (20) celebrou sua 130ª edição.
Desde 1897, Boston organiza escrupulosamente sua prova de 42,2 km. Em 2020, começo da Covid-19, houve uma competição “virtual”.
Mais do que fazer parte do grupo original das tais “majors”, o conjunto das maratonas mais desejadas do mundo, Boston merece ser evocada pela história que se plasmou ali.
Em 1967, a então universitária Kathrine Switzer, que disputou a prova com capuz e moletom para passar despercebida, concluiu essa competição até então interditada às mulheres, ajudando a mudar o entendimento sexista das coisas do mundo.
(E as fotos do prêmio Pulitzer de fotografia Harry Trask do truculento diretor de prova Jock Semple tentando agarrá-la já no km 3 se perpetuaram no imaginário do século 20.)
Em 2013, duas bombas explodiram próximas à linha de chegada num lapso de 14 segundos. Três espectadores morreram, uma criança de 8 anos entre eles.
A coluna talvez tivesse de terminar aqui, sem nem mesmo mencionar o grande número de brasileiros desta 130ª edição, 683, o que nos coloca atrás apenas dos britânicos e dos canadenses entre os estrangeiros residentes fora dos Estados Unidos no ranking de participantes da prova.
Mas nem sempre é preciso levar as dores deste plano para o totem de largada. Meu ponto, na verdade, é outro: a corrida prescinde de um totem de largada. Ela não demanda metas nem provas para ser vivida plenamente.
Antes, um “disclosure”. Meu currículo é escasso. Vou mês que vem para a 12ª maratona, a segunda fora do Brasil. Será em Calgary, no Canadá, fineza não me inquirir sobre critérios de curadoria.
Não sou adepto da ideia de que é preciso viver experiências do tipo “coisas a fazer antes de morrer”. “Ticar” Boston, mesmo eu sendo tecnicamente maratonista, seria apenas mais um fetiche.
Por essa razão, tendo a não dar valor especial a provas formais, dessas de cronometragem e medalha. O que vivi numa manhã ordinária de um sábado de abril, quando saí de casa e comecei a correr sem roteiro definido, um cascalho que acabou 2h20 e uns 26 km depois —o Strava, sempre ele, registrou 23 km–, parece-me a quintessência da corrida, ou, o que dá na mesma, minha tradução para “prazer na corrida”.
E nem foi pelo fato de eu ter passado pelo Museu do Ipiranga e descido as escadarias do monumento; atravessado o Tamanduateí por uma ponte construída tão somente para carros; finalizado a parada num equipamento cultural cidadão e de excelência como o Sesc Belenzinho; e ter uma estação de metrô no jeito para voltar para casa.
Tudo isso sob céu de brigadeiro e temperatura civilizada.
A lança que importa é que dei ali chance para o imponderável. Não havia distância, tempo ou ritmo a cumprir. A atividade física em geral não é lembrada como um vetor de, vá lá, descontrole, e a corrida se destaca aqui por sua autossuficiência. Costumo dizer que, com ela, somos nosso próprio ônibus vermelhão de dois andares de turismo.
Voltarei ao tema, mas deixo a recomendação de incluir na posologia de atividade física um pouco de perda de controle.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Fonte ==> Folha SP