Não será a proibição dos celulares nas escolas —embora muito bem-vinda— nem as mudanças no ECA—também necessárias— que salvarão nossas crianças e adolescentes do murundu mental patrocinado pelas redes sociais: serão as figurinhas da Copa.
De repente, não mais que de repente, um like no Instagram passou a valer muito menos, no imaginário infantil, do que um Lamine Yamal na página 67 do álbum. Uma dancinha viralizada no TikTok não chega perto do buzz criado, no concreto do pátio, pela prateada do Irã colocada, a poucos segundos do sinal, no topo da pilha do bafo.
A própria ideia de “bafo”—não do mau-hálito, por favor, mas do vapor que sai da boca para umedecer as mãos e aumentar a aderência às figurinhas— já me parece uma bela antítese humana, demasiado humana, à assepsia robótica dos celulares. O bafo embaça as telas no sentido literal e principalmente no figurado. Pelos próximos dois meses, telefones e tablets serão obliterados pelos pacotinhos.
Apenas um ponto fora da curva na refrega entre a celulose e o silício? Só o tempo dirá. Mas quando minha filha me perguntou, anteontem, “Você sabe o que é bater bafo?”, uma lágrima quase escorreu por minha face. Nos últimos anos eu não sabia quem era Ariana Grande, quem era Olivia Rodrigo, quem (ou o que) era Katseye, mas a arte de “bater bafo”, minha querida filha, eu conheço como a palma da minha mão. Ou “das mãos”, caso permita-se usar as duas, uma ao lado da outra, questão sobre a qual a Fifa, a Anvisa, a ONU, a Panini e as últimas gerações, até onde eu sei, ainda não chegaram a um acordo.
Tenho cá para mim que, se ambos os contendores podem usar as duas mãos, estão em igualdade de condições, e, portanto, na seara da legalidade. Se bem que se ambos usarem chicletes colados a(s) palma(s) também transitarão no terreno da isonomia, e nem por isso o Trident deve ser liberado.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Perdoem-me se divago. É a emoção. Não só o narcisismo (embora ele tenha aí o seu pezinho) de ver meus filhos dedicando-se a uma atividade à qual durante anos empenhei-me com afinco —Rock-Stamp, Stamp Color, Ping-Pong Espanha 1982, Copa União…—, mas o alívio de ver crianças em brincadeiras de crianças.
Entendo os mais ranzinzas que possam ver na febre pelas figurinhas da Copa um ardil do capitalismo. É verdade, mas, consumismo por consumismo, prefiro meus filhos aos pés do Messi do que nas mãos do Zuckerberg.
No bafo não tem algoritmo. O “impulsionamento” segue apenas as leis de Newton, não qualquer dinheiro aportado. E se um tapa vai na cara das redes sociais, outro vai nas bets, pois no bafo a casa nunca ganha, e as figurinhas circulam sempre e apenas entre os jogadores.
Claro que brincadeira nem sempre acabará bem, mas a perda, no caso, poderá vir como uma dádiva. Vai ensinar a essas crianças lições sobre a derrota, o azar, a injustiça. Quem sabe até leve alguma delas, mais desarvorada após perder numa mãozada a figurinha da bola oficial, um extra-sticker ouro e o Vini Jr., a refugiar-se na biblioteca e buscar consolo na poesia? Para a situação supracitada, o “Soneto da Separação”, do Vinicius, cai como uma luva —artefato, aliás, não só proibido como desaconselhado para a prática do bafo: “De repente (…) das mãos espalmadas fez-se o espanto// De repente da calma fez-se o vento/ Que dos olhos desfez a última chama/ E da paixão fez-se o pressentimento/ E do momento imóvel fez-se o drama//De repente, não mais que de repente (…) Fez-se do amigo próximo o distante/ Fez-se da vida uma aventura errante/ De repente, não mais que de repente”.
Fonte ==> Folha SP