Ter filhos está se tornando uma escolha cada vez mais difícil. Em todo o mundo, a taxa de fecundidade vem caindo ao longo do tempo. Segundo dados do Banco Mundial, em 1960, ela era de 4,7 nascimentos por mulher e, em 2024, de 2,2. A taxa brasileira está abaixo da média, em 1,6, igualando-se à de países desenvolvidos, como Estados Unidos e França. Ao mesmo tempo, felizmente, as pessoas estão vivendo mais. Com isso, observamos um descompasso entre o número de nascimentos e o ritmo de envelhecimento da população.
Uma das principais causas do declínio da fecundidade é a crescente participação das mulheres na força de trabalho. Em média, elas continuam a dedicar mais tempo aos cuidados com os filhos do que os homens. Com maior inserção no mercado de trabalho, ter filhos passa a exigir um custo maior em termos de renda, tempo e oportunidades profissionais.
Segundo o artigo “Fertility in High-Income Countries: Trends, Patterns, Determinants, and Consequences”, uma economia com menos jovens pode sofrer redução da produtividade e da oferta de trabalho, bem como declínio da inovação, à medida que uma população mais idosa demanda menos produtos inovadores e pode apresentar menor nível de empreendedorismo. Nesse contexto, políticas que incentivem o aumento da fecundidade podem gerar benefícios para a economia.
A pandemia da Covid-19 escancarou um problema enfrentado por muitas mulheres: a crise dos cuidados. Ela trouxe à tona a sobrecarga de trabalho feminino. Ao mesmo tempo, normalizou o trabalho remoto e mostrou que é possível haver maior flexibilidade nos contratos de trabalho, o que permite que os cuidadores equilibrem melhor suas tarefas diárias. E será que mais flexibilidade pode alterar decisões sobre ter ou não filhos? De acordo com o artigo “Work from Home and Fertility”, sim. Segundo os autores, ocupações que permitem o trabalho remoto oferecem maior flexibilidade para o cuidado. Isso facilita a vida dos cuidadores e pode influenciar as decisões de fecundidade.
Os autores analisam como o trabalho híbrido se relaciona com a decisão de ter filhos, tanto entre pessoas solteiras quanto entre casadas. Nesse caso, trabalho híbrido significa trabalhar pelo menos um dia em casa e os demais dias presencialmente.
O estudo reúne dados de uma pesquisa realizada em 38 países, incluindo o Brasil, além de outra focada nos EUA, com pessoas de 20 a 45 anos. Para medir a fecundidade, os autores consideram três aspectos: quantos filhos as pessoas tiveram recentemente (de 2023 a 2025), quantos pretendem ter e o total esperado ao longo da vida.
O estudo evidencia um efeito positivo nas três medidas de fecundidade entre os respondentes que trabalham em regime híbrido. Como as mulheres ainda são as principais responsáveis pelos cuidados com as crianças, políticas que promovam maior flexibilidade ou uma divisão mais equilibrada dessas tarefas entre os cônjuges podem incentivar o aumento da fecundidade.
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Para mulheres com parceiros, um aumento na proporção de trabalho remoto na própria ocupação eleva a taxa de fecundidade anual em cerca de 7,3% em relação à média da amostra. Quando se considera também o trabalho remoto do parceiro, o efeito total chega a cerca de 14%. O efeito sobre a fecundidade ao longo da vida, quando ambos os parceiros trabalham remotamente pelo menos um dia por semana, é 14,3% maior, o que equivale a 0,32 filhos por mulher.
Os resultados são animadores. O aumento na oferta de trabalhos híbridos, que parecem ter vindo para ficar, eleva a fecundidade ao ampliar as oportunidades de emprego mais compatíveis com a vida familiar, no presente e no futuro. Assim, a expectativa de maior flexibilidade, hoje e no futuro, altera decisões de longo prazo, uma vez que o trabalho híbrido pode facilitar a conciliação entre cuidados e trabalho em tempo integral.
Fonte ==> Folha SP