Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Malu Galli é a mãe de Édouard Louis no teatro – 27/01/2026 – Mise-en-scène

Malu Galli é a mãe de Édouard Louis no teatro - 27/01/2026 - Mise-en-scène

O que acontece quando uma mulher decide que, após décadas de silêncio e insegurança, nunca é tarde para retomar a própria vida? Essa é a faísca de “Mulher em Fuga”, espetáculo que transpõe para o palco a literatura do francês Édouard Louis. Após causar impacto na Flip 2024, a obra de Louis ganha esta adaptação nacional no Sesc 14 Bis, consolidando a presença do autor nos palcos brasileiros — que recentemente também viram a trajetória do próprio escritor ser esquadrinhada pela Polifônica Cia. na peça “Eddy – Violência & Metamorfose”.

A dramaturgia de Pedro Kosovski funde o olhar sociológico do filho, que tenta entender as engrenagens de opressão que esmagaram sua infância, com a voz da mãe, Monique, que finalmente assume o protagonismo de sua ruptura. No centro dessa engrenagem está Malu Galli, que opera uma transformação radical em cena. Recém-saída da sofisticação da novela “Vale Tudo”, a atriz abandona qualquer aura burguesa para encarnar a exaustão e a resiliência de uma mulher marcada pelo “roubo da juventude”. Com uma atuação vigorosa, Galli equilibra a crueza das violências sofridas com a energia de quem decide que o destino não é uma sentença definitiva.

Sob a direção de Inez Viana, a montagem evita o realismo óbvio em favor de uma plasticidade que evoca a memória. O cenário minimalista de Dina Salem Levy e a luz precisa de Aline Santini criam um espaço que respira junto com a personagem, alternando entre a frieza da submissão e a luminosidade da descoberta da autonomia. Nesse campo de batalha emocional, Tiago Martelli — idealizador do projeto e intérprete do filho-narrador — atua como o elo entre a ascensão social pela cultura e a realidade da qual sua mãe tenta fugir. A presença da voz original de Édouard Louis em cenas específicas funciona como uma âncora de realidade, lembrando que o drama encenado é, acima de tudo, um manifesto coletivo.

“Mulher em Fuga” disseca temas urgentes como o isolamento da maternidade na pobreza e o ciclo de relacionamentos abusivos. No entanto, o triunfo do espetáculo reside na ideia de metamorfose. Ao ver Monique romper com estruturas que tentavam silenciá-la, o público não testemunha apenas um drama íntimo, mas um ato de insurreição política e poética. É um teatro de ferocidade afetiva que não quer apenas emocionar, mas celebrar a possibilidade constante de reinvenção, provando que a liberdade é um exercício que pode ser aprendido em qualquer idade.

Três perguntas para…

… Malu Galli

Édouard Louis escreve sobre o “roubo da juventude” e do corpo pela pobreza. Como você trouxe essa questão sociológica para o campo da emoção e do gesto?

O roubo da juventude é tema central no recorte da nossa adaptação. A interrupção dos sonhos, da alegria, da liberdade. Isto está expresso nas cenas, nas imagens que construímos. Sobre o corpo pobre, trabalho a dureza dos gestos e da fala, nas memórias dele sobre a infância, quando a família atravessava a miséria.

Você já comentou que a maternidade é um ponto em comum entre você, a personagem e o público. De que forma a sua experiência pessoal como mãe informou a construção dessa Monique que precisa, em algum momento, se priorizar?

Acho que qualquer mulher que seja mãe compreende a saudade de si mesma, a necessidade de se resgatar, de abrir espaços para si. Isso nos conecta a todas, por mais diferentes que sejam nossas histórias.

A peça fala de uma mulher que decide recomeçar aos 50 anos. Para você, qual a importância de levar aos palcos brasileiros uma história que celebra a autonomia feminina nessa fase da vida?

Celebrar a autonomia feminina em qualquer fase da vida é importante. Qualquer fase da vida de uma mulher é passível de interrupção e, portanto, de reinvenção e libertação. Aos cinquenta anos temos muita experiência, mas também desejos e força, temos tônus. Talvez seja a fase mais potente de uma mulher. E a mais sujeita a apagamento, pelo fato de marcar o fim da fertilidade. Isso no mundo patriarcal coloca a mulher em um não lugar, pois ela perde a “função”. Esse pensamento vai de encontro à pergunta anterior: deixar de ser mãe em potencial também liberta e potencializa outras possibilidades para este corpo.

Sesc 14 Bis – rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, região central. Qui. a sáb., 20h. Dom., 18h. Até 8/2. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 21 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades





Fonte ==> Folha SP

Relacionados

Principais notícias

O Crime Quase Perfeito: A Fraude de Diplomas que Engana o Brasil
O avanço do e-commerce regional e de nicho: como pequenos negócios estão conquistando espaço digital
Como mais de 3,8 mil escolas do Amazonas estão se mobilizando para melhorar a qualidade da educação pública

Leia mais

Consumidores ficaram 9,3 horas em média sem energia em 2025, diz Aneel; redução é de 9,2%
Consumidores ficaram 9,3 horas em média sem energia em 2025, diz Aneel; redução é de 9,2%
Festival do Cambuci de Paranapiacaba
Festival do Cambuci chega à 21ª edição e projeta Paranapiacaba como destino de experiências gastronômicas e culturais na Mata Atlântica
Dólar cai até R$ 4,97 e Bolsa bate recorde com negociações entre EUA e Irã em foco
Dólar cai até R$ 4,97 e Bolsa bate recorde com negociações entre EUA e Irã em foco
Ramagem é preso pelo ICE, serviço de imigração dos Estados Unidos, diz PF
Ramagem é preso pelo ICE, serviço de imigração dos Estados Unidos, diz PF
Flávio Bolsonaro chama Tereza Cristina de 'sonho de consumo' ao responder sobre vaga de vice
Flávio Bolsonaro busca marqueteiros que evitem radicalização na campanha
Governo quer liberar R$ 7 bilhões do FGTS de 10 milhões de trabalhadores, diz Marinho
Governo quer liberar R$ 7 bilhões do FGTS de 10 milhões de trabalhadores, diz Marinho