Minha primeira reação a “Pluribus“, série de ficção científica concebida por Vince Gilligan, criador de “Breaking Bad“, foi de antipatia. Alguma coisa no aprendizado forçado da protagonista, caricatura de autora de best-sellers, temperamental e irascível, confrontada com o mundo colonizado e uniformizado por um vírus alienígena, soava demasiado calculada.
Tive de chegar ao final da primeira temporada para entender que as possibilidades desse cálculo eram bem mais complexas e contraditórias do que eu havia imaginado.
É tremendamente irônico e paradoxal que uma autora de best-sellers vulgares encarne a representação máxima da inconformidade; que até segunda ordem seja ela a única a se incomodar e se rebelar contra um mundo onde todos tendem a fazer as mesmas coisas. Um mundo do qual as diferenças e singularidades foram banidas, onde a manifestação das individualidades é mera ilusão e aparência, onde a vontade é do vírus e os indivíduos estão reduzidos a sua representação.
Uma escritora de best-sellers teria tudo para saudar um mundo assim como a realização máxima do Paraíso na Terra, lugar sem mistério nem surpresas, onde todos leem os mesmos livros, cujo conteúdo conhecem por antecedência e aplaudem em uníssono. Como aos poucos vai ficando claro para ela, os colonizados pelo vírus amam e conhecem os romances dela de cor.
Nesse mundo, ninguém pode ser contrariado em sua autoimagem, em suas ações vividas sempre como gestos do bem, mesmo quando têm por finalidade submeter o desvio à uniformização. A uniformidade é o bem supremo, antídoto de todas as contradições, o que justifica a urgência de evangelização, por assim dizer, o esforço de colonização dos poucos que, por razões misteriosas, de constituição individual, física, resistem ao vírus e ainda não compõem a massa homogênea e supostamente feliz.
Explodir em crises de nervo contra a benevolência automática e generalizada dessa gente, como faz a escritora, pode pegar muito mal e ainda ter efeitos deletérios e até fatais. É como se a autora de best-sellers de repente acordasse para o inferno de estar cercada de fãs e seguidores por todos os lados, obrigada a corresponder ao código de conduta e reciprocidade que esperam dela.
Fora os milhões de humanos que morreram na tomada do planeta pelo vírus, restam apenas 12 indivíduos que, por razões ainda não inteiramente esclarecidas, resistem à colonização. A forma de mantê-los distraídos, enquanto se desenvolvem métodos para também subjugá-los e integrá-los à grande massa unívoca e obediente, é fazendo todas as suas vontades.
A exemplo da internet, da inteligência artificial e da vulnerabilidade dos colonizados que não dão conta da contradição, entrando em convulsão ao menor sinal de violência ou contrariedade, o meio para chegar à submissão e à colonização final dos resistentes é não contrariá-los.
Os colonizados não entendem por que a escritora resiste a compor o todo, uma vez que a comunhão num único ser traz a paz de espírito e a compreensão universal. É parte do dispositivo de poder do colonizador dizer que faz o bem ao colonizado.
Aqui a tutela se justificaria moralmente por frear o processo suicida da espécie humana, com todas as suas diferenças e individualidades em conflito, sua incapacidade de trabalhar pelo interesse e pelo bem comuns. Ainda assim, a autora de best-sellers prefere o conflito a abrir mão das singularidades, do mistério do mundo e da autodeterminação. Pode só escrever clichês, mas sabe qual é o lugar da literatura.
Perto do final da primeira temporada, outro personagem, tão singular e solitário quanto a escritora, vem fazer par com ela. Um resistente que, como ela, teve de aprender por conta própria a só confiar em quem o desafia. Entendeu que a verdade está com quem se recusa a fazer suas vontades. Já que essa é a história de uma escritora, não será exagero ver nele o leitor ideal.
Fonte ==> Folha SP